Feminilidade, mitologia e religião: a presença das mulheres e o sagrado

No imaginário do consumo moderno, as propagandas divulgam novos produtos, muitos deles protagonizados por belas mulheres. Sedução da promessa. Muita gente gosta de prometer. E entre as promessas mais comuns feitas por mulheres, mas também por crescente número de homens, é a bendita dieta. Comida e corpo em conflito. Pelas obras de mulheres, os benditos corpos esguios, as curvas erótico-místicas enchem os sonhos dos homens. Isso quando se realiza a promessa. E quando se realiza, é o paraíso a abrir suas portas. E são abertas com generosidade, derramando carícias e delícias. Enchem os homens de gozo. 
Os antigos cultos pagãos celtas e outros davam lugar de destaque ao feminino e à mulher. As sacerdotisas e as artes mágicas da cura.  E não falo nos cultos de fertilidade do Neolítico, as pequenas estatuetas Vênus de Willendorf, com mais de 20 mil anos de idade. Os rituais e as mitologias ressoavam a beleza e a alegria que apenas a mulher é capaz de proporcionar. Não todas, é verdade. Apenas as belas mulheres.
Mas, olhando o panorama das instituições religiosas, em especial as cristãs, a presença da mulher e do feminino é rarefeita. Não são muitas as igrejas a privilegiar o sacerdócio. Entre muitas igrejas pentecostais mais recentemente é que se abriu maior espaço do que antes para as pastoras. Nas igrejas históricas a presença feminina é maior, mas ainda sim, são mais homens que mulheres, e estão em mais posições de poder. Já vi algumas pastoras evangélicas. Em algumas parece que feminilidade foi sequestrada e/ou censurada, tomada de assalto. Algumas parecem soldados másculos. A beleza e a sensualidade das curvas femininas parecem despertar desconfiança e sobre elas exercem-se limites estéticos, estabelecidos pelas instituições e, muitas vezes, auto-incorporados pelas próprias mulheres.
Na Igreja Católica, o tema é delicado. A mulher, a própria graça encarnada, ocupa, se for tomada a perspectiva sociológica de Pierre Bourdieu, uma posição dominada, subordinada no campo institucional católico (as irmandades e ordens femininas ocupam as margens do poder sacral católico, ou uma posição expropriada no contexto do capital simbólico). O sacerdócio católico feminino é tratado como se fosse um delírio de católicos progressistas e seu simples debate, objeto de interdito. Os conservadores alegam muitas razões naturais (supostas), mas na verdade são razões simbólicas e míticas. Nesse aspecto, alguns dizem que pesa a concepção teológico-mítica da Igreja como Noiva de Cristo. Mas há grupos interessantes no seio do catolicismo contemporâneo, como as "Católicas pelo Direito de Decidir", um belo incômodo para padres, bispos e Ratzinger, Bento XI.
Pensem a revolução teológico-institucional
se houvesse sacerdotisas católicas?
A Santa Ceia jamais seria a mesma...
No horizonte mítico-teológico cristão, o feminino tem um estatuto variado. A sabedoria, no livro bíblico correspondente, é personificação feminina; a graça, palavra feminina; a pomba, imagem feminina; Madalena, personagem importante, foi a primeira a presenciar a ressurreição do Amado, digo, de Jesus Cristo;  algumas passagens bíblicas apontam Deus com amor de mulher-mãe. Por outro lado, na figura mítica de Eva, o pecado entra e a misoginia grassa durante muito tempo no cristianismo institucional. Na tradição mitológica judaica, Lilith seria a primeira Eva, logo tornada princesa dos demônios. E, dizem alguns, justo por se rebelar contra a posição ocupada na relação sexual com Adão. Alguns historiadores propõem, como hipótese, que os cultos femininos na região do Oriente Médio (Palestina), sucumbiram ao predomínio de um novo culto, masculinizado, de uma entidade única, monoteísta, guerreira, ciumenta (Javé) e foram demonizados. Maria, e a centralidade de seu culto, recuperam, por um lado, a questão do feminino, mas a questão da sensualidade, da atração, permanece nas sombras, torna-se objeto de misoginias e temores masculinos.
Bourdieu comenta de forma mordaz, que na prática mágica e nos demônios a elas associados, ressoa a dominação de um grupo que expropria outro do capital simbólico, tornando-se hegemônico. Magia é o que o outro faz, o que "eles" fazem. O que "nós" fazemos é religião, e verdadeira. Antiga dicotomia, "eles" e "nós" a propagar-se em todos os grupos religiosos. O campo religioso é campo de poder e luta pelo capital simbólico. Por isso é sempre salutar mergulhar em outros universos.
      O exercício comparativo desperta novas imagens e novas maneiras de compreender a si e as culturas contemporâneas. E lendo sobre os povos Pueblos, de "nuestra América" fiquei a pensar. Nos escritos dos antropólogos da famosa "escola" Cultura e personalidade, Franz Boas e Ruth Benedict, encontram-se referências ao povo kere. Vários povos Pueblo diziam que a criação era uma obra feminina. A primeira Criadora Mulher: que belo. E o animal associado a essa criadora era a aranha peluda, criando o universo a partir da teia de seus sonhos e pensamentos. Dizem os mitos que no princípio havia apenas um ser, a aranha Sus'sistinako que jogou seus pensamentos ao espaço e teceu o universo. E criando outros seres, botou abaixo da Terra Iatiku, mãe-filho ou sopro-da-vida, que criou todos os elementos que compõem o mundo, até mesmo a diversão (o palhaço Koshare), moldado com pedaços de sua pele, para fazer as pessoas rirem. Iatiku era de duplo: subterrâneo, lugar para o qual os mortos retornavam e aéreo-terrestre, viajando pelo mundo, levando o dom da vida. Iatiku teve duas filhas, Iatiku-Filha e Nautsiti, respectivamente mãe dos povos indígenas e mãe dos povos brancos. A Mulher-Aranha cumpre um papel importante como Criadora nas mitologias de outros povos do Sudoeste dos EUA.  As moças dinés esfregam teias de aranha nos braços, num ato performático, que as torna tecelãs incansáveis.
      Entre os hopis acredita-se que a Mulher-Aranha teceu a lua com uma espécie de algodão branco e moldou os primeiros homens do barro. Aqui está um aspecto, no plano das narrativas míticas, que o Deus Todo-Poderoso dos monoteísmos, melhor, do judaico-cristianismo pode sentir de fato, ciúmes: ele não foi o único a criar os homens do barro. A mulher  em suas curvas generosas, em suas hábeis mãos e quadris, potentes beijos e toques, gera vida. Em todos os sentidos.
      Por outro lado, há um toque de morte muito frequente na cultura contemporânea que une mulher e comida, dois sujeito-objetos fundamentais na teia das relações humanas e sociais. Apesar de algumas discordâncias de fundo, um interessante livro (Éric Bidaud, Anorexia, ascese, mística), tece interessantes considerações a respeito dessa moléstia, descrita há pelo menos 300 anos em alguns manuais. Uma questão provocativa é proposta: "Não se poderia considerar a anorexia, por sua vez, sob o ângulo da religião, em seu aspecto místico, como teologia negativa?" (p. 9). Para esse autor, a conduta anoréxica está ligada à noção de "tentação", empréstimo da teologia. Um laço mãe-filha no singular, realçando o que ele diz ser, freudianamente, a misteriosa gênese da sexualidade feminina. 
      Relendo sua pergunta, a anorexia seria uma espécie de ritual  litúrgico de uma teologia negativa do Mundo Ocidental? Uma teologia esculpida no corpo da mulher na neurótica recusa de alimentar-se? E aqui, um capítulo interessante é escrito: anorexia santa e anorexia profana, em que ele compara Santa Catarina de Sena, Doutora da Igreja, às voltas com jejuns e abstinências profundos e lacerantes (aos 7 anos, dizem, dedicou sua virgindade à Maria), a anorexia de jovens francesas atuais. A curva se torna reta óssea, a vida seca, literalmente. Um mal a atingir milhares de belas jovens no Brasil e no mundo. Uma pausa: é tolo, e sem rendimento compreensivo, culpar o mundo do consumo ou a ditadura da beleza moderna. Dois argumentos inúteis e burros.
      A hipótese de um livro citado por Bidaud parece ser interessante (R. Bell, Holy Anorexia, 1994): a anorexia santa, na época de grandes santas católicas como Clara de Assis e Catarina de Sena, seria um modo de afirmação pessoal da mulher e do feminino, num contra-jogo com o mundo institucional religioso e social que pretendia subjugá-la. Com a Contra-Reforma, continua Bell, esse modelo "martírico" é substituído pela benfeitoria e surgem as "irmãs de caridade", as irmandades femininas de obras pias etc.

Uma observação complementar: na época de Clara e Catarina, as fogueiras inquisidoras católicas (masculinas e misóginas) queimavam belas mulheres (algumas), portadoras da arte mágicas de cura e do parto (e outros saberes), inseridas em antigas tradições orais que exprimiam a autonomia (relativa) dessas camponesas, mães, esposas, filhas, sapecas. Subjugar e dominar é gesto de poder, exerce fascínio e desperta as mais loucas fantasias. Em níveis psicológicos expressam cruéis perversões (pedofilia e estupro). Na dimensão sócio-cultural, essas dominações adquirem outras concretudes: exclusão do feminino, e da mulher, das instituições religiosas, das posições de mando e poder, sem falar na remuneração desigual que recebem as mulheres em relação aos homens. Um porém deve ser dito. Que não se entenda dominação, subjugação e outros termos num sentido atemporal ou essencialista. Há sempre que se considerar os casos sob a ótica histórica, social, cultural e contextual concretas. E aí, a posição da qual me aproximo é a posição filosofia pragmática. As mulheres são a força vital. E, lembrando o que eu li em Ghiraldelli, são os homens que vivem dando trabalho pras mulheres, avós, mães, esposas, namoradas. Verdade.
Enfim, que 2013, sob gozosas mãos femininas, seja generoso para todos nós.
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