Mais um dedo de prosa sobre o fim e ponto final...

 Há pouco tempo ouviu-se muito sobre o fim dos tempos. Calendários e coisas afins. Apocalipses. Grupos religiosos estocando produtos em abrigos subterrâneos, profetas correndo para refúgios nas montanhas.
          Fim universal de tudo, do Sonho, do Mundo, da Vida ou fim infinitesimal de cada coisa, existência, mundo, vida? Mas, mesmo num contexto cristão, marcado por milenarismos e messianismos, o Fim é o outro lado de um Começo. Este Eterno, nas esferas celestiais. Pelo menos é o que alguns imaginam. 
          Há grupos religiosos que desde o século XIX marcam o o fim do mundo. Mas, Deus brinca e na hora "H", nada acontece. Alguns até dizem fazer cálculos certeiros, cabalísticos e até mesmo "quânticos". Ainda bem que Deus tem bom humor...


          
Desconfio dos discursos apocalípticos. Na verdade, eles escondem um desejo e, às vezes, um anseio desenfreado pelo fim. Por outro lado, alguns pensam: "Já que estamos nos tempos do fim, vou dar uma mãozinha pra Deus, né mesmo? E vamos purificar este mundo corrupto e impuro". Daí nascem os "taxi-drivers" (Filme Taxi Driver), malucos a deitar fogo naqueles que chamam de "pecadores", os "impuros", os desviantes de qualquer espécie, mandando-os todos para o Fim que nunca acaba, o Inferno na visão cristã clássica. As profecias são fenômenos típicos de sociedades marcadas pela influência das religiões monoteístas. Outras sociedades e culturas são influenciadas por outras ideias religiosas e/ou conceberão as profecias de outros modos e formas. Por exemplo, as religiosidades budistas e hinduístas propagam a noção de carma e do eterno ciclo de morte e renascimento. Dessa forma, como o ciclo é infindável e permanente, não faz sentido uma profecia do fim: fim da historia, fim do mundo, fim de tudo. Originalmente a profecia está relacionada ao processo de adivinhar o futuro, a previsão de sinais e acontecimentos. Mas, a partir do fortalecimento das religiões monoteístas, baseadas na ética, nas escrituras, na moral como subsecção da teologia, o significado cultural da profecia foi transformado em “comando e voz de Deus” e obediência a um código vindo do Céu, dirigido a um povo, a uma nação, aos homens e mulheres. O sentido original da profecia (magia de adivinhação) perdurou ao longo da história, ora conflitando, ora complementando o sentido ético. Esse aspecto divinatório é muito antigo, ligando-se a religiões primitivas e religiões antigas, como a religião grega, com o famoso Oráculo de Delfos ou templo de Apolo, um dos lugares sagrados mais venerados pelos gregos.

Por outro lado, essa vontade de saber sobre o Fim pode ser interpretada de diversas formas: como um componente inato, um impulso biológico ou, numa perspectiva freudiana, uma incapacidade do aparelho psíquico humano de lidar com a morte, a limitação, o fracasso, o fim da linha. Por outro lado, é preciso acolher a perspectiva das limitações etológicas da espécie, mas pode-se pensar também que o Grande Fim é, na verdade, a projeção de inúmeros fins, ou seja, rupturas como as mortes, assassinatos, as guerras etc. Nesse sentido, a ansiedade por saber como e quando será o Fim da Humanidade é uma patologia antropocêntrica. Na verdade, se for levantada uma perspectiva darwiniana, o homem é mais uma espécie entre muitas outras e com certeza se transformará ou será extinta no longo processo evolutivo.
Alguns filósofos diriam que é necessário buscar uma abordagem cosmocêntrica, que permita ao homem nem superestimar-se, nem subestimar-se. Por outro lado, a partir de uma perspectiva fenomenológica, a experiência humana pode ser entendida como uma experiência de finitude e do desejo de ultrapassá-la, mas também do desejo pela finitude em si. Todavia, dentro das ciências sociais da religião, essa vontade de saber quando e como será o Fim da Humanidade pode ser interpretada como um produto e uma construção da cultura e da sociedade. Um pouco mais sobre o fim? Eis uma breve entrevista: http://clickciencia.wordpress.com/2012/12/14/457/.
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