Corporeidade, amor e religião: uma visão pragmática

Em algum lugar li que há três tipos de amor. Em outro lugar, li que, na verdade, esses tipos de amor, são três dimensões do Mesmo, um Amor (letra maiúscula). Mas não sou tão "metafísico" e o nomeio os três tipos: eros, ágape e fraternità

Essencialismos, metafísicas e ontologias acabam por desconhecer o poder da contingência e da visão pragmática (não no sentido do senso-comum). Ou não. Justamente por conhecerem desejam tanto a não-contingência, a permanência, a essência.


 Todavia, de alguma forma, todos os tipos de amor se realizam pelo corpo, no corpo, por meio do corpo. Mais do que simples objeto, o corpo é totalidade do existir no pleno presente; plena presença no único tempo que dispomos: o presente. Presente o corpo, presente as possibilidades de existir. Em algumas tradições esotéricas, teosofia e outras, são diversos os corpos e corporeidades.

Daí o abraço do amigo, o estender a mão aos que necessitam e a ardência dos corpos que se amam profundamente um para... o outro, um dentro do outro.
Caldeirão das Bruxas
Desenho Pessoal - 2009
 Entende-se a análise do sociólogo alemão Max Weber para quem a sexualidade, ou amor-eros, é a força que oferece uma das mais intensas experiências de plenitude e êxtase, formidável concorrente das religiões de salvação. 

E na plenitude erótica do amar-se um ao outro, a força intensa que se desprende é sublime e une tudo numa totalidade aberta: almas, corpos, emoções, vidas. 


Não no sentido de uma abstração transcendente, mas de uma concretude a irradiar-se. E assim fico a pensar na desconfiança cristã do amor-eros que escorre pelo corpo, pelos lábios, pelas pernas, pelos seios.

Mas, mesmo nessas famílias religiosas, marcadas pelas desconfianças, o amor-eros foi celebrado de formas paradoxais: a ousadia dos adamitas ou irmãos do livre-espírito na Idade Média ou da comunidade protestante evangélica Oneida durante a segunda metade do século XIX nos EUA. A desconfiança faz com que essas famílias coloquem o amor-eros sob uma pesada tutela: sacramentos, rituais, tabus, prescrições e regulações moralistas, e tudo sob a mediação de autoridades (da tradição ou da instituição).
     Talvez porque o amor seja portador de raios líquidos de luar e de sol, intensos e poderosos. Capazes de aproximar universos os mais distantes num piscar de olhos e abrir uma vasta avenida, capaz de mover mundos inteiros com um leve toque, de iluminar com a força de mil sóis qualquer situação. 

Pela desconfiança cristã, um dos mais belos livros da Bíblia, Cantares de Salomão ou Cântico dos Cânticos, é lido apenas em alguns momentos e apenas alguns dos seus trechos.
    
Os mais intensos e eróticos nunca são lidos nas igrejas e nos púlpitos. O amor-eros parece ferir ouvidos mais sensíveis... Imagine uma congregação evangélica ou católica, tradicionais, em um culto voltado para o amor entre os casais (e digamos que eles sejam casados dentro do que essas tradições estipulam como válidos e legítimos), ouvindo um trecho como este: “Sejam teus seios como cachos de uva, tua boca como vinho generoso”...

E no entanto, é bíblico. Aliás, muitos ateus e muitos crentes desconhecem a beleza literária da Bíblia, o poder de suas mitologias e histórias. A narrativa bíblica é essencial na formação de muitos valores ocidentais. Não como literalidades, mas como ambiências interpretativas que forneceram novos paradigmas para a política e a cultura. Desviei do assunto.

Volto ao amor e a Bíblia. Usando uma tradução, o capítulo oito do livro do Cânticos dos cânticos (ou seja, o cântico supremo), é formidável na força poética das imagens: “Põe-me como um selo sobre teu coração, como um selo sobre teu braço! Porque é forte o amor como a morte, e a paixão implacável como a sepultura: suas centelhas são centelhas de fogo, labaredas divinas. 


Águas torrenciais não conseguirão apagar o amor, nem rios poderão afogá-lo. Se alguém quisesse comprar o amor, com todos os tesouros de sua casa, receberia somente o desprezo”. É, o amor é forte mesmo.
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