Simpatias, ritos de passagem e desejos de bem-estar

      Chega ao fim mais um ano e o mesmo ritual se repete. Repetição tem sido uma das muitas características do ritual. A performance, a capacidade de transformação, o deslocamento de tempo e de espaço, ou como diria Roberto da Matta, colocar em close-up fatos e elementos comuns com novos sentidos, são outras características do ritual que muitos antropólogos estudaram, algumas contraditórias. A tradição é continuada, mas permanece em diálogo com novas configurações da cultura. Uma dialética interessante, o moderno e o tradicional. Eles não são essências imutáveis, definidos de uma vez por todas, mas identidades, ou melhor, processos, processualidades, movimentos. E nessa época, mas também em outras ocasiões, as simpatias chegam com força total. São centenas de formas, composições, elementos, cores, cheiros, texturas. Simbologias rituais em profusão. As passagens de ano são momentos ritualizados, importante forma de marcar a passagem do tempo. E há simpatias para tanta coisa: arrumar marido, namorado, novo amor, dinheiro etc. Alguns dizem que serve até um quebra-galho, um(a) encosto(a) bonito(a) e gostoso(a). Essas são as mais comuns. Lembrei-me de uma simpatia: comer três uvas roxas, pegar os caroços e jogar sobre as costas, pelo ombro direito.
Ou serão sete uvas?
 
Se, por azar, se compra uva sem caroço, e na hora da meia-noite se come, complica. Mas quem sabe, não ter nenhum caroço, é sinal que 2013 não terá nenhum problema. Nesse aspecto mágico-místico, tomar os banhos é uma prática comum, que de Norte a Sul percorre as vivências populares da religião: pajelanças, catolicismos de vivência popular, benzeções, umbandas e candomblés.
      O destino me deu a felicidade de conhecer a mulher que me encantou (e encanta). E conheci Belém e Colares, no Pará. Eita coisa muito boa, uai (sou mineiro). O famoso Mercado Ver-o-Peso (Belém), santuário das sabedorias populares e de suas "sacerdotisas" e "sacerdotes", os erveiros e erveiras. Sabedorias indígenas e caboclas mescladas. Há banho para tudo, com ervas mágicas e poderosas: banho para atrair dinheiro, amores, saúde física e mental.
Alguns com nomes sugestivos: "Chora-nos-meus-pés", "Chega-te a mim",  "Abre-caminhos" entre outros.
Dizem que pimenta é bom contra inveja,
corta todas as energias negativas. Sua ardência
é tida como afrodisíaca.
Os incensos (arruda, guiné, alfazema) e essências (pau-rosa, pau d'angola) são muito comuns. A fumaça eleva os pedidos, acreditam muitos, e as divindades os acolhem. Perfumar o corpo, dizem, atrai "bons fluidos", "boas energias" e outras tantas categorias populares. Observe-se que a presença das partes íntimas de botos e botas é comum, são poderosos afrodisíacos, atraem o amor. Por falar em potência, costuma-se misturar ervas nas essências, o que redobra sua eficácia. 
      No caso das igrejas neopentecostais, a tradição dos banhos é reinterpretada. E agora são, digamos, bençãos divinas: as águas abençoadas com arruda, sabonetes ungidos, caminhos de sal que a Igreja Universal do Reino de Deus espalha para que os fiéis pisem e etc., tudo está dentro dessa grande religião chamada Brasil. Por outro lado, muitas igrejas pentecostais, ao contrário, preferem orar no monte, fazer vigílias e jejuns. Contudo, a busca é pelo bem-estar, estar bem, estar de bem com as boas coisas da vida: amor, dinheiro, saúde, paz. E as religiões ressoam isso.
      O pólo do sacrifício-sofrimento se atenua, e emerge o pólo do bem-estar e da felicidade, bem sintonizado com a moderna sociedade de consumo. A teologia da prosperidade é fruto dessas novas configurações da religiosidade no mundo moderno. A tradução da ambiência do shopping e da sedução do consumo no mundo religioso. Condenar o consumo sem mais, nem menos, e com raiva, tem algo, talvez muito, de desinteligente. Militantes tontos (à esquerda e à direita, religiosos e ateus, intelectuais ou não) costumam fazer isso. Não sei se nesse caso um bom banho de ervas, ou mesmo uma garrafada resolveriam.
      E tome banho, fé, alegria, sorriso e esperança. Por falar em esperança, foi a última coisa que ficou na famosa caixa de Pandora. A mitologia grega revela, nesse aspecto, uma interessante ambiguidade. Como nos apresenta Mircea Eliade (História das ideias e crenças religiosas, vol. 1), Hesíodo e Ésquilo colocam Prometeu em posições opostas: como aquele que introduziu a ruptura entre os deuses e os homens, irritando Zeus ao furtar o fogo e presentear aos homens, atraindo a ira divina; como aquele que ensinou as ciências e ofícios aos homens que vivem em obscuras cavernas, o herói-civilizador.
     Na obra Teogonia, a mulher  é vista com desconfiança, com um toque de misoginia: Zeus manda a mulher sob a forma de Pandora. Esta, ao trazer o presente-armadilha abre a caixa e deixa escapar todos os males que afligem os homens. E quando Pandora recola a tampa da caixa, no fundo só resta a esperança. A versão de Ésquilo, a de Prometeu herói, é a mais destacada, tendo como admirador confesso Karl Marx. Contudo, Prometeu é um Titã, membro da "velha geração" divina. O exemplo de Prometeu poderia ter impactos negativos e Zeus não toleraria uma humanidade poderosa e altiva. Esta deve sempre se lembrar de seu estado precário e efêmero. Dizem as mitologias que Zeus manda um dilúvio, e Deucalião, filho de Prometeu e único sobrevivente, realiza um sacrifício que é aceito por Zeus. Narrativas míticas similares entre os cristãos e seu Livro Sagrado, a Bíblia. Adão e Eva comeram o fruto que os tornariam semelhantes a Deus. Javé ficou com ciúmes e os expulsou do Paraíso.
      Suscitar a boa-vontade dos deuses, fazer simpatias e sacrifícios para demonstrar amor ou suscitar a benevolência divina, marcar a passagem do ano de algum modo (os fogos, os abraços etc.) são importantes elementos simbólicos para as sociedades, rituais de passagem como ensina Van Gennep. Isso é fundamental para ressignificar/ressemantizar a vivência cotidiana dos homens e mulheres, imersos no tempo que passa o tempo todo, que a tudo dilui.
De qualquer forma, abrir as portas de um novo ano depende de nossa disposição e boa vontade. E que as tenhamos em abundância neste ano que se inicia!
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