Um toque sacral: concepções de sagrado e diferenças semânticas

O Sagrado espreita e você não se apercebe, percebe, apreende. O mito vive e respira, tece a trama dos homens e das mulheres. Mas eles não são sujeitos? Não fazem também por si, sua história? E os homens desfiam fio a fio suas ideias. 

Campanha da Duloren, remetendo a Yemanjá, deusas das águas nas culturas africanaslegenda
O Sagrado desce e sobe, por sobre teus ombros, deslizando, roçando, sussurrando. Ou beliscando forte tua nuca. E quando não esperas, quando o tempo do mito se faz denso, uma brisa vermelha ronda esquinas, cruzamentos, encruzilhadas.  Assopra e vais ao encontro, ao som de tambores, surdo e seco, longo e sonoro. Trançando os pés, num bailado de fervor e vinho, gozo e filosofia perfuram a grossa dobra de armaduras enrijecidas. Rolam pedras que se tornam areia fina e branca, ou preta. Gargalhar entre folhagens verdes, e vislumbrar nas frestas da festa, o tempo eterno, em todas as eiras e beiras, em tribeiras e tridentes, nos quatro cantos do espaço. Com essa descrição é inevitável pensar em Exu, o guardião das encruzilhadas, mensageiro absoluto, que abre e encerra os rituais em muitos terreiros de umbanda e candomblé.

Mas que sagrado é este? O que atemoriza, provoca fascínio, pavor, desejo extático de fusão ou de efusão? Diante do qual nenhuma palavra pode ser dita, senão dançar. Rudolf Otto pensou em algo parecido, mas há sagrados que não são Sagrados. Há religiões e que o sagrado não é temor, ardor, fogo, mas está em gestos cotidianos, sem transcendência nenhuma, exceto a própria imanência que remete aos afazeres mais simples do dia-a-dia: tomar uma xícara de chá. Desconfia-se que a ideia de sagrado como o absoluto que irrompe na vida e na história tem sua origem em algumas experiências de culturas específicas, em povos semíticos, como os hebreus. Dai, espalhou-se para as religiões do livro, da ética como cristãos e muçulmanos. Então, o que é o sagrado? Atemporal e absoluto? Ou mediado e histórico?
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