Fé, corpo e dança

Os cultos religiosos tem um ator, o corpo, um protagonista. Espalham-se pelas redes sociais, sites, portais de vídeo, cenas em que os corpos dançam, alucinados, doidos, girando. Corpos pentecostais, umbandistas, afro-brasileiros. Milhares de vídeos, dos mais diversos rincões do Brasil, das mais profundas periferias. Corpos para serem vistos, auto-celebrados. É a difração do olhar que registra, interpreta e relê as realidades gozosas do corpo religiosamente engajado. 

Os enquadramentos, as direções da imagem, a luz e a sombra já são modos de interpretar as presencialidades inevitáveis do corpo que gira os braços, que une as palmas, que volteia pelo pequeno salão. É um corpo datado, masculinidades e feminilidades dispostas e ordenadas. Pula-se, dança-se, vibra-se, canta-se: dos fragmentos, tão breves e pequenos, sem encadeamentos explicativos do ritual, o corpo atua, o corpo é a fé, e a fé é do corpo.

Canto e gesto em profusão, transbordamento e alegria, vertigens, quedas, choros. Síncopes e ritmo. A fé não existe sem corpo. Às vezes é para ser "descorporificada", flutuando nos oceanos da pura contemplação búdica ou abstrata dos conceitos. Contudo, o corpo é ferramenta, ação e ator essencial. 

Afinal, como presentificar uma ausência (o não-um, o vazio), um (o) nada sem a presença e a existência da carne? A fé (se é possível entendê-la como modo de habitar-o-mundo) existe pelo corpo em suas pequenas-grandes razões de estar-no-mundo. Uma presencialidade que pode ser lida de várias formas: loucura, alienação, êxtase, "inefável" ou "fraude", e outras tantas mais. 

No entanto, prefiro ler de forma "alta" e "forte" os corpos que dançam e celebram os deuses, o Espírito Santo, os orixás, as pomba-giras, os exus. 

Sem reter, reduzir, dissolver ou ampliar os significados de forma a não banalizar, e portanto, não "descorporificar" a realidade desnuda ante os olhos. Em Le Breton, sociólogo francês, lê-se: "No escoamento da vida corrente, o corpo se esvanece. Infinitamente presente - porquanto, é o suporte inevitável, a carne do ser-no-mundo-, ele está também infinitamente ausente de sua consciência" (Antropologia do corpo e modernidade, Editora Vozes, p. 192). 

Suporte? Afetado? Não. O corpo é ser e estar no mundo simultaneamente. É afetação, e não apenas afetado. E uma afetação que se desdobra em emoção, em gestos desferidos, performatizados e codificados em padrões. 

E assim, eles apalpam a fé, e por ela são apalpados...
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