O Oriente é aqui: teodiceia e tai-chi-chuan

       O corpo parece flutuar. Garras de águia. Deslizando por entre a música de sabor oriental, suave toque da terra do Sol Nascente (Japão). Ideogramas anunciam uma antiga prática envolvendo a totalidade do existir num exato momento. Ritmo sereno, lento. À frente, um pequeno altar. Na entrada e na saída, uma saudação: corpo reto, reclinando cabeça e tronco. Em círculo, 'corposmentes' se postam. Corpo em arco, pés girando, mãos abertas. Pés paralelos, mão esquerda retraída com punho fechado, mão direita com  palma aberta à frente, polegar e os outros dedos em ângulo de 90 graus. Pé direito esticado, pé esquerdo com joelho levemente flexionado. Profundidades terapêuticas em simples gestos. Ética de aprendizado: duas mãos juntas ao receber qualquer coisa, seguida de reverência.
       Uma arte milenar que se espalhou em solos urbanos brasileiros, atraindo jovens adultos, adultos e terceira idade. Equilibrar mente e corpo, algo que o tai-chi-chuan prometeu-me. Ao fim da aula, a leitura de escritos taoístas e uma interpretação psico-sociologizante do mestre-professor: "muitos tem pouco, poucos tem muito no capitalismo; satisfazer-se com o necessário é sinal de sabedoria". Chego em casa após os exercícios e nos fundos do vizinho, ouço esta música: "O Haiti é Aqui". Os novos baianos a cantam: Gil e Caetano. A pobreza e a miséria não estão lá, mas por aqui. Imediatamente, reapropriei-me e fiz o mote deste post. Montar, jogar, perfazer, extrair e combinar de forma livre, individual, com base na experiência emotiva e estética pessoal. 
       Parece coisa de Nova Era, um Grande Capeta Devorador aos olhos dos movimentos cristãos: pentecostalismo histórico, neopentecostal, catolicismo conservador e carismático (e o cristianismo da libertação, mas nesse caso é um capeta alegórico: alienação, ideologia, mercado religioso, moda etc.).
Não parece, é. É a chamada New Age, com toda sua corte de gnomos, fadas, budas, meditações, iogas, devoções japonesas, artes marciais, terapias (cristais, cores, plantas) e uma interminável lista em permanente construção e mistura, elaborada por indivíduos em ligação contingencial com redes e comunidades, reais ou virtuais. Já ouvi casos de auto-iniciação esotérica por meios eletrônicos: skype, internet, listas de debate, fóruns. Ou ainda, iniciação ciber-religiosa: comunidades e suas lideranças interagindo por meios eletrônicos e, quem sabe, um encontro presencial. Curso de Teologia Umbandista à distância, com mestres ascensionais vindos do Oriente. Ciber-religião. Isso sem falar nas tradições locais: o Povo Cigano é um toque oriental na Umbanda. Gilberto Freyre fala do toque oriental na cultura brasileira: mouros, cores e outros costumes: o antigo véu negro ou branco, de origem árabe, na cabeça da beata católica que reza seu terço fervorosamente em louvor à Virgem Maria. E misturando tudo, como a boa e velha feijoada, temos vivências religiosas aos borbotões no mercado, por meio do qual o acesso as experiências orientalizantes é franqueado, divulgado, consumido. E não falei dos jogos divinatórios, dos hinduísmos e budismos, mais 'puros' ou mais meclados. E, por fim, as ressurgências pagãs, celtas ou druidas (entre outras), em vastas combinações. Haveria de ser diferente em uma sociedade de mercado, invenção ocidental? 
       Pelas novas formas de comunicação (novas mídias), abre-se uma janela para o Oriente, larga e espaçosa. Um Oriente que penetra e compõe até com o Cristianismo: yoga cristã (no lugar de mantras, salmos alongados, graves e guturais). E as orientalizações crescem: a medicina chinesa, a acupuntura e outros procedimentos terapêuticos e de busca de iluminação interior se popularizam, expandem-se, são consumidos. Propagam-se como ondas. E recombinam-se entre si, ressemantizando a grande invenção ocidental, inaugurada por Santo Agostinho: o "eu" como interioridade, templo absoluto e sagrado, centro de decisão e escolha pessoal diante do Deus Todo-Poderoso. Mas, nos tempos contemporâneos, o "eu" escolhe não ser "eu", mas um com o "cosmo", uno com o "todo". Homens e animais, plantas, universo: emanações e igualdades, num jogo entre micro e macro-cosmo. Para muitos tradicionalistas, um atentado. Para os que vivenciam essas experiências uma nova busca, nova forma de viver a religião, ou melhor, a espiritualidade. Essa categoria ganhou enorme força nos discursos religiosos e acadêmicos com a orientalização. Usada em estudos empíricos dos efeitos da religião no cérebro, por exemplo, é uma categoria "impessoal", ocupando o lugar de variável em estudos ditos científicos. E sem falar na física quântica. Aqui o terreno se alarga tanto, que as fronteiras vacilam. Tal categoria entrou também nas clínicas e na academia universitária (cursos de enfermagem adoram usá-la), na ponta das agulhas da acupuntura, nas massagens terapêuticas e revigoradoras. E pode ser encontrada na boca da sábia e serena Vovó Ana, entidade espiritual de Umbanda. Em 2012, entre outros orientalismos, ela me disse: "Dá licença, vô sopra a fumaça pra abri (sic) seus chakras, desenvolver sua espiritualidade". 
       Lembro-me de um belo artigo do sociólogo britânico Colin Campbell, "A orientalização do Ocidente". Não se trata de uma onda a invadir o Ocidente, como o senso-comum imagina. Mas da emergência de uma nova teodicéia, de cunho oriental, com características específicas: a recusa da dualidade, a valorização da síntese, a totalidade, a intuição, entre outras. Outro livro, um excelente contra-ponto, é de Edward Said ("Orientalismo"), que nos fala da construção, por parte do olhar ocidental, de um Oriente exótico. O movimento romântico do século XVIII é parte dessa construção.
       Todavia, Campbell afirma que os anos 1960 são o ponto de mutação (Fritjof Capara), o acirramento do embate entre as duas narrativas básicas (a teodiceia ocidental e a oriental) de como o ser humano se vê, pensa e significa o mundo e seus infindos habitantes, o cosmo, o sofrimento, a dor, a injustiça, os movimentos da natureza. A luta entre a teodiceia ocidental e a oriental, menos como produtos espaciais, mais como "tipos". E com duas tendências: "ocidentalização" (expansão mundial do modelo de civilização ocidental moderna, industrial etc.) e "orientalização" (expansão mundial de outras fontes de significação do cosmos, do humano e de suas relações). Com isso, dois dos mais poderosos sistemas intelectuais, o Cristianismo e o que Campbell chama de Progressismo Secular (sob a forma do socialismo e do marxismo) sofrem suas mais fortes críticas, e reveses. Numa interessante observação, Campbell diz: "Essas duas grandes tradições mostraram sinais claros de mudança em direção a um paradigma oriental, sendo a influência imediata principal, em ambos os casos, não o pensamento oriental, mas a filosofia idealista alemã" (1997, p. 17). Teólogos e pensadores sociais são nomeados: Tilich, Barth, Bultmann (teólogos), de um lado; de outro, Marcuse e a escola de Franckfurt (sociologia). Contudo, se for realizada uma arqueologia do saber, muitos sistemas filosóficos são portadores de uma enorme proximidade com a teodicéia oriental: o sistema de Spinoza, por exemplo.
       Fazendo uma reflexão mais conclusiva, diz Campbell (1997, p. 20): "É no próprio coração do Ocidente que a 'ocidentalização' está enfrentando seu desafio mais selvagem, um desafio que está sendo suportado por uma perspectiva que é, em essência, 'oriental'. Isso está ocorrendo porque aquele paradigma dominante ou 'teodicéia' que serviu tão efetivamente ao Ocidente por dois mil anos finalmente perdeu seu controle sobre a maioria da população na Europa Ocidental e na América do Norte. Essas não sustentam mais um visão de mundo dividido em matéria e espírito e governado por um Deus criador, pessoal e todo-poderoso, que tenha colocado suas criaturas acima do resto da criação. Essa visão foi abandonada e, com ela, toda justificativa em favor do domínio do homem sobre a natureza. Em seu lugar foi posta a visão fundamentalmente oriental da humanidade como parte da entrelaçada teia de vida espiritual e sensitiva". Toma fôlego a ideia de uma religiosidade espiritual e mística, para lembrar a famosa categoria do sociológo e teólogo Ernest Troeltsch, presente de múltiplas formas, em múltiplas combinações, de forma crescente, para dentro do cristianismo (na ênfase místico-mágica, por exemplo), e para fora também.

       Os movimentos ambientalistas, a ressurgência de discursos e visões de mundo 'nativos' e marginalizados (os povos indígenas, os xamanismos, as combinações religiosas como a umbanda, o santo daime, vale do amanhecer e a suas expansões do Mercosul até a Europa) tomam pujança e implodem a teodicéia tradicional. É um movimento de grande envergadura. Vamos ver como a teodicéia ocidental dialoga e reage a esse embate. Cena para os próximos capítulos.
 
CAMPBELL, Collin. A orientalização do Ocidente: reflexões sobre uma nova teodicéia para um novo milênio. Religião e sociedade, 18/1, agosto de 1997, p. 5-22.
 
SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo: Cia das Letras, 2010.
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