O repto evangélico ao Estado Laico

          O título deste post é uma homenagem a um dos mais destacados estudiosos do fenômeno religioso brasileiro: Pierre Sanchis. Num artigo escrito na década de 1990, "O repto pentecostal à cultura católico-brasileira" (ver referências ao fim do post), Sanchis colocou importantes  questões sobre o impacto do pentecostalismo no cenário social-cultural-religioso brasileiro. Em 2010, com os resultados do Censo-IBGE, e uma infinidade de fatos e artigos, percebe-se o quanto suas reflexões descortinavam amplos horizontes. Hoje, conforme aponta Faustino Teixeira (2012), há o desmoranamento da "cultura católico-brasileira" como arcabouço valorativo da vida sócio-cívica nacional.
O pentecostalismo "sequestraria" a cultura católica-brasileira, impondo-se como alternativa ético-cultural? Essa pergunta feita no alvorecer do crescimento pentecostal tinha um gosto quase "weberiano". Entretanto, junto havia uma "boa-vontade" para com o objeto "religião", duramente criticada pelo sociólogo Antônio Pierucci. Uma outra ideia que não faz tanto sentido no contexto brasileiro: a noção de que o avanço de formações cristãs pentecostais estaria associado ao avanço da democracia e ao reforço da ordem liberal-democrática. Há uma correlação problemática entre essas duas dimensões por uma série de razões que vão desde a falência da educação escolar de base, ao caráter emocionalista (com sabor anti-intelectual), ao fundamentalismo de certos grupos evangélicos e a tendência a invalidar em muitas questões, a autoridade não religiosa como fonte de orientação e marco público. Quando esses grupos deslocam as questões culturais e éticas, e as formas de viver em sociedade, para o terreno da Revelação, aí coisa fica complicada. 
 Quando li o artigo de Ghiraldelli na Folha de S. Paulo (03/01/2012), fiquei matutando. De fato, vivemos situações sérias, bem descritas no artigo: "Caso 1. Há lugares (Rio de Janeiro à frente) que mantém aulas de religião na escola pública, inclusive exigindo que o professor seja antes um devoto que autenticamente um estudioso do assunto. Caso 2. Após o início da novela "Salve Jorge", a Rede Globo já teve de vir oficialmente explicar para grupos evangélicos que a novela não faz a apologia de nenhum santo católico ou afro-brasileiro" (ver referências ao fim deste post). Completo esse breve matutar com o trecho de uma notícia sobre a mais importante prefeitura do país, São Paulo: "Em fevereiro de 2010 [...] o então vereador e hoje deputado federal pastor José Olímpio (PP) conseguiu apoio de colegas evangélicos para barrar um projeto da Prefeitura que dava isenção de Imposto sobre Serviços (ISS) para empresas ligadas à área da cultura. Seu objetivo era pressionar Kassab a conceder alvará para um templo da Igreja Mundial no Brás, considerado ilegal pelo Ministério Público Estadual (MPE)."
Esses são exemplos de "interesses pequenos". E assim o espaço público, e a política, são invadidos por mais uma constelação de interesses: os religiosos, ligados às igrejas. Afinal, mais de 20% da população brasileira se declara evangélica. Ainda está por se fazer uma análise aprofundada sobre os impactos dessa constelação religiosa no espaço público-estatal e na cultura.  
Por outro lado, alguns pesquisadores são pessimistas quando o futuro da relação religião-política está em pauta. A investida de grupos religiosos conservadores e reacionários (que desejam restaurar a “velha” ordem), pode trancar, ou atrasar, a pauta de debates (e ações legislativas) sobre os direitos de minorias (indígenas, negras, sexuais, mulheres), entre outros aspectos fundamentais em um Estado Laico. Laico justamente para garantir  as liberdades de expressão e crença dos grupos sociais. Junto a esse repto, ouvimos afirmações toscas (porque baseadas na mais absoluta ausência de cultura letrada escolar, ou no seu desprezo religioso) como as de um deputado federal, ligado a uma igreja evangélica. Dizia ele que a miséria na África seria produto da prática de magia que é demoníaca e condenada por Deus.
Um dado a mais no repto: falta abertura para o debate em muitos desses grupos religiosos "novos" (neopentecostais). Isso não exclui outro grupos, como os católicos conservadores. Neles, não se vê disposição para o diálogo, a leitura crítica e aberta. Afinal são militantes, "guerreiros e soldados de Deus". E nas mãos de "guerreiros" não se encontram livros e ferramentas, mas escudos erguidos e espadas desembainhadas.
 A representatividade evangélica na política é positiva para a sociedade? Alguns analistas se perguntam. Alguns dizem que sim, e citam, dentre outros aspectos, as obras sociais junto aos drogados e a outros grupos em dificuldades. De fato, essas obras existem. Mas, estendamos a análise ao campo da política institucional. Desde a Assembleia Nacional Constituinte (1986), existe um grupo considerável de cristãos evangélicos. Ao longo do tempo, algumas igrejas concentraram as representações: as Assembleias de Deus, a Igreja Universal, (Bispo Macedo), a Igreja Quadrangular. As pesquisas indicam crescimento expressivo da bancada evangélica ao longo do tempo, mas esse número parece ter se estabilizado atualmente.
Sobre a "positividade" de sua atuação, e seu contrário, a "negatividade", estamos diante de um tema complexo, sujeito a defesas apaixonadas. Vejamos algumas ponderações. A “positividade” da atuação poderia ser analisada em dois cortes: um individual (atuação do parlamentar) e outro, grupal (atuação coletiva). Sobreposto a esses dois cortes, deve-se considerar as temáticas em questão: ambientais, econômicas, culturais e outras. Isso forneceria um painel mais compreensivo. Porém, algumas análises tendem a apontar a pouca importância da atuação individual em face da atuação coletiva, esta portadora de uma forte tendência conservador-reacionária, e ao mesmo tempo assistencialista, dificultando ações afirmativas e o pleno usufruir de direitos das minorias (religiosas, como as afro-brasileiras, homossexuais etc). E desde esse ponto de vista, algumas análises dizem que essa influência é um verdadeiro estorvo.
Algumas pessoas podem se perguntar se a religiosidade da população pode influenciar tanto assim o cenário político-cultural (e a legislação) de uma sociedade. Sim, podem. No Brasil, grupos religiosos conservadores evangélicos e católicos, conseguem poder de agenda e de bloqueio, conseguem atrasar, ou alterar, aspectos legislativos que dão dignidade democrático-cívica e institucional às minorias sexuais ou sociais. 
Muitas dessas influências religiosas ocorrem por conta da visão de mundo interna a esses grupamentos, ou seja, eles acreditam que valores religiosos específicos (como, por exemplo, a família nos moldes tradicionais) são valores universais e que por eles se deve lutar, fazendo-os prevalecerem em toda sociedade. Determinados sentido das ideias de missão, vocação e outras, comuns na grande família do cristianismo (católicos e evangélicos) contribuem para a inscrição desses grupos numa zona de tensão entre os valores laico-civis da esfera social mais ampla (Sociedade e Estado) e os valores religiosos específicos. De qualquer forma, é necessário fazer um balanço sobre a atuação desses grupos e bancadas religiosamente compromissados, seja em termos acadêmicos, seja em termos cívico-sociais, um balanço profundo e democrático.
Entretanto, algumas análises apontam limites para a influência desses grupos, já que tendem a privilegiar interesses corporativos relacionados a seus planos (econômicos e políticos) imediatos. Por outro lado, a opinião pública tende a rejeitar radicalizações moralistas, derivadas de líderes político-religiosos. Na eleição seguinte, os representantes radicais ou sofrem pressões para se "enquadrar", ou deixam de ser eleitos. Outro dado: muitos desses políticos compromissados com determinada visão religiosa podem até ser eleitos com um discurso agressivo, mas quando estão na câmara legislativa atuando, precisam lidar com o jogo da política,  com outros grupos de pressão e, por isso, acabam se adaptando, cedendo em alguns pontos, promovendo releituras de seus posicionamentos. Como disse um grande ex-jogador: "jogo é jogo, treino é treino".
Termino o texto narrando uma vivência pessoal. Viajo frequentemente de ônibus urbano, e nele, ouvem-se conversas o tempo todo. Num dia desses, sentei-me um banco à frente de duas mulheres. Aparentando cerca de 30 a 40 anos, conversavam bastante animadas. Pelo que pude ouvir, frequentavam igrejas evangélicas há um bom tempo. Conversa vai, conversa vem, uma perguntou o que a outra achava da "ordem" do pastor acerca de um procedimento estético, obviamente baseada numa opinião negativa. A mulher indagada reagiu com veemência e disse para a outra algo como: "é preciso ter opinião própria, nós mulheres precisamos nos valorizar, temos direitos e ele não pode sair por aí mandando assim.". Estamos diante de um fenômeno cheio de nuances, tons e combinações...




 


GHIRALDELLI JR, Paulo. Um Brasil mais religioso. Folha de S. Paulo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/86661-um-brasil-mais-religioso.shtml

SANCHIS, Pierre. O repto pentecostal à “cultura católico-brasileira”. In: ANTONIAZZI, Albert et al. Nem anjos nem demônios. Interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 34-63.

TEIXEIRA, Faustino. Uma análise sócio-fenomenológica do pluralismo religioso no Brasil. Rev. Eclesiástica Brasileira, v. 72, n. 288, outubro de 2012, p. 958-964.

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