Religião e ciência: tensão e diálogo

       Algumas pessoas insistem em opor ou então fundir, Ciência e Religião num só caldeirão. Insistir na fusão mística ou na separação férrea são atitudes pouco inteligentes. Isso mostra que o debate entre ciência e religião está cheio de militantes, apaixonados defensores de cada posição (fusão ou separação). Ateus em militância "irreligiosamente religiosa" pela ciência contra a religião, vista como ilusão e falsidade e religiosos-místicos em defesa permanente a favor da religião-dentro-da-ciência/ciência-dentro-da-religião, povoam os territórios acadêmicos e sociais. E aqui, o gato brinca com o rato: é um tal de física quântica pra lá, estudos empírico-espiritualistas pra cá e teologia acolá. 
       Uma pergunta sempre necessária: do que estamos falando? Por isso, é fundamental prestar atenção a linguagem e a forma como ela é usada na conversação entre ciência e religião, entre religiosos e cientistas. Do contrário, as coisas ficam encavaladas, confusas. Quando se fala em gato e rato, quem é o gato, quem é o rato? Ciência ou religião? Os partidários de um iluminismo radicalmente ateu, acusam a religião de ter sido o gato que quase matou o rato. Dizem que não pode haver paz entre as duas. E quem nem deveria haver. Estaria na estrutura das duas antagonizar-se: uma é ilusão, a outra a realidade. Alguns grupos religiosos só invertem essa lógica binária: a fé é verdadeira, e a ciência, errônea.
       Os partidários da "fé em lua-de-mel com a razão", dizem que a ciência tem bancado um pouco de gato, brincando com o rato. Dizem que é possível para duas dialogarem, mas a partir de certos marcos, como as ideias de razão e direito natural. Esse último um belo bastião  para as teorias morais da cristandade sobre a família e o casamento. E há os "enfezados", digo, os cheios de fé, que rejeitam as teorias científicas clássicas (as de Darwin sobre a evolução das espécies, por exemplo) e procuram nas palavras do livro de Gênesis (Bíblia), a literalidade das provas da Criação Especial, com cálculos e tudo, "matematicamente comprovados" dizem eles. O mundo: criado exatamente há tantos mil anos (e algumas horas, dizem algumas vozes discordantes no grupo) quando Deus estava pairando sobre as águas, ou sobre o caos. O homem: criado ao amanhecer do  dia tal, modelado do barro e tendo o sopro divino colocado narina adentro. Deus amassou o barro literalmente.
       Há a turma do "deixa-disso". Esse grupo cria a teoria do Desenhista/Desenho Inteligente: como explicar a tamanha complexidade, beleza e grandeza do universo e de todas as coisas senão por um autor, um exímio desenhista da realidade? Ideia criticada por muitos, mas abraçado por outros tantos: teólogos e cientistas, em especial cientistas de confissão cristã. E há os que defendem a perfeita conciliação entre Ciência e Religião: a teoria do Big Bang  e a ideia do início do tempo como ato ex nihilo divino (o que havia antes do Big? O Bang de Deus? Ou será o contrário?). Alianças e oposições entre religião e ciência são muitas, pois são feitas pelos grupos e comunidades que sustentam práticas religiosas e científicas.  Parece haver apropriação mútua, às vezes bem seletiva, de argumentos, sentidos e horizontes de uma e de outra narrativa. Há, portanto, um painel complexo. Porém, se entendermos ciência e religião como formas de narrar, de se colocar questões, temos uma outra forma de articular os fios da trama: são linguagens que expressam e criam realidades específicas e humanas. Mas, de uma maneira ou de outra, as questões de poder e hegemonia estão aí: grupos religiosos pedem a benção de procedimentos ditos "científicos" para comprovarem a existência de fenômenos transfronteiras, espirituais, ou de limites de normalidade sexual, por exemplo. Grupos de cientistas comportam-se como portadores de fé inabalável nas certezas positivistas e isso apesar de outros cientistas mostrarem enormes fissuras no edifício do discurso soberano. Thomas Kuhn faz uma falta danada, assim como filosofia e sociologia das ciências. E não falei na crítica feminista às ciências e à teologia. Aí a coisa radicaliza: o rato morde o rabo do gato.

       Quando se fala de ciência e de religião pode-se pensar na relação entre teologia e ciência, e isso passa pela filosofia e suas reflexões. Não que a religião se reduza à teologia e a ciência à biologia ou às neurociências. As ciências humanas, sociologias e antropologias, tecem críticas, por exemplo, a forma como as duas são relacionadas por muitos grupos sociais de religiosos e cientistas. Há muitos fios nessa trama: muitas teologias, muitas ciências, e muitas formas de tecer os fios da religião, da teologia e da ciência. Há teólogos que dizem duas coisas: a verdade do cristianismo estaria ligada a afirmação da teologia como uma ciência (Wisssenschaft), como o faz Pannenberg. E a resposta não demorou: Nancey Murphy, a partir da filosofia, apontou suas baterias contra essa ideia e desconstruiu seu arcabouço. E aqui a coisa fica "gato-pardo": à noite todos saem para caçar. Os fios são extensos, esbarram e misturam-se por todos os lados. Por exemplo, da parte dos empirismos científicos, temos grupos de cientistas no mundo e no Brasil, estudando o efeito da meditação, ou do transe mediúnico no cérebro humano, por exemplo, por meio da mensuração controlada. Ou comparando efeitos da oração sobre doenças. Evidentemente, as críticas a esse grupo partem de muitas comunidades científicas. Outro grupo dedica-se a explicar os mecanismos presentes em fenômenos religiosos. São criticados por outros grupos. E isso sem falar nas modernas práticas da biogenética e da engenharia genética: elas estão por trazer impactos importantes nesse debate. Impactos a serem conferidos nos próximos capítulos. O jogo é de gato e rato: corre, pega, esconde, aparece, torna a esconder, morde, assopra e corre. Todavia, o grande legado da ciência é a crítica e não a comprovação teórica.

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