Bento XVI, Malafaia e o Diabo: secularização e sagrado off-limits

       Os acontecimentos tomam rumos inesperados, às vezes, e precipitam-se de forma intensa, anunciando um cenário diverso, complexo e interessante. Três fatos próximos podem desenhar essa paisagem complexa. Muita gente comentou a renúncia do Papa, e dias antes, a entrevista do Malafaia com uma das melhores entrevistadoras da TV Brasileira, Marília Gabriela. Todo mundo deu pitaco em tudo. Jornalistas de economia comentaram sobre Bento XVI, psicólogos brandaram pela cassação do registro profissional de Malafaia, líder evangélico conservador, formado em psicologia. Esse é um brado justo. Alguns poucos comentaram as acusações estranhas de uma mulher, moradora de Vitória, capital do Espírito Santo, quando esta afirmou: "o Diabo me levou para o Motel". Será que existe uma relação entre esses três assuntos? Talvez sim. Ou talvez não. Mas vamos por partes, para não engasgar. Algumas narrativas sobre o mundo, o homem e suas relações entraram em curto-circuito. Quais? Aquelas narrativas que, ou o encantam, ou o desencantam, de forma abrangente: o comunismo, o cristianismo. As narrativas conservadoras também estão em cheque. E uma sucessão de opiniões que não acertam o alvo são proferidas. Há diversos conservadorismos em ação, e eles precisam ser entendidos em contextos e situações específicas. Do contrário, ver-se-á (apenas) soldados de Cristo brandindo Bíblias (portadores de uma leitura pouco produtiva, botando na cachola teorias conspiratórias malucas) ou soldados da Utopia Vermelha, invadindo MacDonald's, denunciando imperialismos e neoliberalismos em tudo, até debaixo do sapato vermelho de Bento XVI. Todos pensando que sabem muito, mas na verdade, não sabem de muita coisa. Discurso monocórdico: ou a culpa é do Capeta, ou do capitalismo e outras coisas. Tagarelam, só isso. Não tem coisa melhor pra dizer. Nesse turbilhão de opiniões, dizem que o ainda Papa (até dia 28 de fevereiro) não é pop como seu antecessor, João Paulo II, mas que agora sim, virou pop-star. Dizem que renunciou por conta de inúmeros escândalos: financeiro (Banco do Vaticano), pedofilia, brigas internas. Dizem que sua renúncia se deu por causa de conflitos políticos dentro do Vaticano (como se nunca houvesse na história vaticana) e que o ato foi um ato de real politik; ou um fracasso, uma perda de controle sobre forças reacionárias que uma vez mobilizadas, engoliram o aprendiz de feiticeiro. Reduzem tudo a uma dimensão menor. E alguns dizem pra jogar fora todas essas explicações: não valem o angu que comem. De fato, o sentido da renúncia é maior. Dizem que foi por conta do cansaço. É um trabalho hérculeo tomar a Nau de Pedro em meios às muitas turbulências, torná-la competitiva e dotada de uma narrativa forte, porém, conservadora, capaz de fazer frente aos desafios da época atual e aglutinar o rebanho disperso: o parlamento francês, e o britânico, começaram a aprovar o casamento gay, ou o reconhecimento, por parte do Estado, de que casais do mesmo sexo tem direitos iguais aos casais heterossexuais; movimentos ultra-conservadores (Fraternidade Pio X) e ultra-liberais católicos (Católicas Pelo Direito de Decidir) puxando a batina papal, quase rasgando-a; igrejas evangélicas arrebanham em searas antes católicas. Isso, só para começar, pois cada item desses pode ser desdobrado em outros e outros. Que fiquem apenas esses, por enquanto. Do outro lado do país banhado pelo rio Tibre (quase às margens do Tietê) uma liderança evangélica (Mala)faia, acredita como o Papa, (sim, uma crença), ser dotada pelo Divino Poder de uma missão, um mandato especial num mundo secular. Acreditam que o Mundo (a sociedade, a cultura, as modernas relações culturais e sociais) jaz supostamente sob o Maligno (relativismo, minorias, casamento homossexual e outros). Para um, o Maligno é sofisticado, metafísico e ontológico; para outro, é sensorial-corpóreo, capaz de ser exorcizado em rituais e de se esconder em simples coisas. Desenhos da Disney, por exemplo. Para outras pessoas, é um sedutor que conduz (ou que seria conduzido?). Dizem que para um, a estratégia foi tocar a trombeta e reunir as tropas atrás do Castelo, expurgar ou desbaratar "gente nossa", mas moderninha demais, secularizada e canhota. Mas deu o tom, elaborou uma narrativa forte, e para dentro e para fora, alongando o tempo de vida da Nau de Pedro. Dizem que para o outro, o toque da trombeta atiçou a cavalaria dos incautos sobre os gentios, estes tomados como adversários a serem derrotados ou como povo coitado, passível de ser iluminado, resgatado e convertido (mesmo que à força) já que não sabem o que é bom para eles mesmos. Somente o líder bem-amado, canal direto de Deus sobre a face da Terra saberia o que é bom para todos. Para outros (outra no caso), um misto de terror e fascínio pelo desejo sexual, tudo em uma narrativa cheia de lacunas. Para muitos, a culpa é difícil de digerir: desculpabiliza-se um comportamento secular, prosaico, comum, e reculpabiliza-se uma entidade éterea e impura, mas dotada de um poder sacral.




Três sequestrados pelas doutrinas, mas de formas completamente diferentes. Um líder religioso como o Papa acredita em sua formação teológico-filosófica, e por isso realizou um ato simultaneamente político, existencial e pragmático: "atendo aos meus interesses e os da Igreja, renunciando. E, de quebra, entro para a história". Queriam um papa heróico, que de tão sagrado, fosse capaz de dar a própria vida, um cordeiro pascal sangrando. O papado como carisma fulgurante, a iluminar o Mundo sob as garras da secularização e sob o perigo de deixar Deus de lado. E no entando, um homem de begala diz que está cansado, sem vigor. Bento XVI fica, sai Ratzinger. E na Wikpédia já é Cardeal-Arcebispo emérito de Roma (e foi Papa de Roma até dia 28 de fevereiro).... Depois dizem que o Vaticano não é antenado com as mídias e as tecnologias do mundo moderno. Outro líder, revigorado por holofotes potentes, inverte a lógica liberal-democrática ao atacar violentamente minorias sociais e, assim, investir contra a secularização do comportamento entendida como perda de controle dogmático-religioso sobre consciências e ações, sobre indivíduos e espaços públicos. Esse líder galopa no medo e na insegurança profunda do que diz ser. Só quem tem medo de não ser o que é, ou melhor, do que se acredita ser, fica obcecado com o que imagina ser o adversário, aquele que o desafia. Ou melhor ainda, só o que não é o que diz ser ataca desesperadamente um outro que, no fundo, aponta para a verdade inscrita debaixo do nariz daquele que ataca, e por isso, odeia tanto este outro. Um fica para a história, o outro não.
Quanto a outra, até o Diabo a deixou. A ela só restou posar para o jornal com a Bíblia na mão...
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