As voltas da religião na modernidade e hipermodernidade: la tempesta è sopra noi (religious storm).

         E la nave va... A religião, suas voltas e seus nós nas modernidades. Enroscada nas engrenagens sociais, está aí. Pulula nos púlpitos eletrônicos e televisivos, ou nas comunidades rurais, em "fuga-do-mundo". As chapadas abrigam refúgios de comunidades esotéricas, e mais algumas, com temores apocalípticos. Ou nas comunidades urbanas, em sua missão sagrada de transformar o mundo pela ação religiosamente orientada, portadora de desdobramentos sociais e culturais bem diferentes das intenções originais dos "profetas-reformadores" ou "profetas-fundadores".
          A religião bota a cabeça para fora nos números declarados de crenças e práticas, dos trânsitos e fluxos entre religiões de origem/etnia e religiões de escolha/busca. Uma crença (e uma prática) que repercute para muito além de seu sítio original. Católicos que acreditam em reencarnação e horóscopo, apóiam o papa, mas usam camisinha e métodos anticoncepcionais. Neopentecostais que exorcizam o demônio, passam debaixo do pano vermelho abençoado ou da toalhinha benta com o  "suor" do apóstolo. Religião em mescla ou na busca da "pureza" nunca suficiente (e inexistente, afinal, ao final). No entanto, entre a emoção original (alguns dizem atemporal), perdida na história (na horda ou no néocortex, completam psicanalistas e neurobiólogos) e a atualidade do presente histórico, estende-se uma linha que, aos olhos dos religiosos, é contínua, como diz Hervieu-Lèger. A menos que outros grupos teçam, e façam valer, memórias heterodoxas, divergentes da linha-doxa, mas conectadas (ou vistas como intimamente ligadas) de alguma forma com emoção "primordial" (pretensas linhagens 'puras').
          Diga-se de passagem, não existe acordo mínimo entre os especialistas se devemos falar em religião ou religiões, ou melhor, sobre quando dar ênfase ao singular e ao plural; se um, ou o outro, deve ser adorcizado, ou, ao contrário, exorcizado. Fala-se em religião, singular, para territorializar a semântica, para evocar o mantra da cientificidade. Um objeto de muitas facetas: estética, política, ética, moral. E uma tempestade, às vezes. Uma trama de palavras é a religião. E na trama de palavras, em seus interstícios, redes ou rizomas (Deleuze), aninham-se desejos, sonhos, quimeras, sensualidades, místicas, bravuras, falseamentos e sublimações. A religião é trama de desejos e palavras, enroscando vidas, escolhas, indivíduos e comunidades, entrelaçando política e consumo, marketing e dogma. Quem diz religião, diz rito, mito e cosmologia, estruturas e presenças. Diz linguagens e semânticas, mas também diz política para dentro e para fora do grupo, da família religiosa, da sociedade, do Estado. O tempo todo. Política como estratégia de ajuntar aliados para a "causa" e  para dividir (ou retirar o poder) os adversários da "causa", ou dela dissidentes. Qual a "causa"? A mais nobre, a de Deus, óbvio, por supuesto. Só os pecadores não percebem, dizem alguns, e por isso (repetem esses mesmos alguns, profissionais e gestores do sagrado), precisam ser salvos, mesmo que não queiram. Dilemas das heteronomias de si.
          Na alta modernidade, como Giddens nomeia (ou hipermodernidade, como prefere Lipovetski) as fronteiras das identidades (religiosas, políticas, sociais, estéticas) tornam-se móveis (metáforas e performances, construtos a exigir plausibilidade). A religião vem a ser (vir-a-ser), para alguns, um objeto tinhoso e astuto: fala de fundação e natureza, de um lado, e, de outro, cai nos braços tecnológicos do capitalismo midiático e moderno. Mas nem todas as narrativas religiosas supõe uma fundação, um além ou um transcendente (o Totalmente Outro, o Outro do Totalmente). A religião no Mundo Ocidental assumiu uma presença ontológica e metafísica: o Cristianismo (texto e letra desse Mundo Ocidental ao longo de dois milênios). Mas há tantas vivências pagãs, antigas e reconstruídas, populares e pós-modernas de religiosidades híbridas, esotéricas, afro-católicas, ibérico-católicas, afro-descendentes, florestais, camponesas, indígenas, lúdicas, porque agônicas, em muitas direções, visagens e pajelanças. Há brincadeiras religiosas de ser e não ser; de estar ali, e depois acolá; de esconde-esconde. Isso engana muitos pesquisadores, tornados num passe de hermenêutica em mais "crentes" do que os crentes originais. E escondidas, as religiões riem. Por isso, em certas situações, é bom não falar em religião, mas em religiões. Ou quiça, nesses tempos desconcertantes, em espiritualidades. Dizem que é, enfim, o império do indivíduo desconectado das instituições (e suas ossificadas regras), a dançar no espaço-tempo das cidades e do ciberespaço, consumindo e compondo sua própria sinfonia espiritual com notas consonantes e dissonantes, oriundas das mais diversas partituras religiosas. Ou de uma só, mas com muitas variações. Um livre-indivíduo, compondo seus rituais e valores como quem senta a beira de um lago sábado à tarde, ou diante da tela azul de um computador, nas manhãs de segunda.
          O indivíduo e suas escolhas em amplitude máxima. Essa é uma imagem com ar romântico. Relembra Robson Crusoé. Mas, nos pés dos indivíduos, enrosca-se a instituição, as regras e as moralidades que pedem atenção exclusiva. Ciumentas que só elas. "Deus-Ciúme-Jeová" sucedido por "Deus-Amor-Madalena" ou "Deus-Ternura-Filho Pródigo". Luta de dois Titãs. E por isso, partidos políticos e candidatos entram em acordo, ou se engalfinham. Mistura de acordes bíblicos e civis, em tensão constante. Arranjos e arcabouços institucionais e culturais em choque, ou em conversa ao pé-do-ouvido. Emerge um espaço público atravessado por processos de encanto e desencanto, por emergências de minorias e sua luta por direitos, mas também por invenção de maiorias em suas destras autoritárias. E aí estão as longas durações da história lenta, católica, afro-descendente e indígena, mágica, algumas vezes sonolentas. As comunidades e instituições estão presentes. Elas não desaparecem num passe de mágica, mas estão e se tornam (vir-a-ser) como nós numa rede de relações e fluxos, trânsitos, deslocamentos de corpos, ideias, valores, símbolos. Nesse sentido, parece haver três tipos de trânsitos: de pessoas entre tradições e símbolos; de práticas e crenças entre comunidades  grupos e de pessoas ao longo de sua vida, em sua trajetória biográfica, por religiosidades.
          Dessa forma, as tradições teimam em se reinventar na hipermodernidade: o sal-grosso, a fita vermelha, a rosa branca, a água benzida e energizada, o gesto vigoroso a espantar maus augúrios, ou a agitar asas angelicais. Novenas e correntes, inquebrantáveis, ou nem tanto. Sacolas tilintando de dim-dim. Uma confusão. Uma "com fusão", diria um sorrateiro sociólogo da religião durkheimiano. Ou uma diferenciação tensionada entre esferas de valor, assim sacaria um weberiano de sua cachola. Ou um campo conflagrado por lutas em busca do capital social e simbólico, replicaria um sisudo pesquisador bourdiano. E, por fim, essência não-manifesta, diria um fenomenólogo curioso (e de calças-curtas, apanhador de siris). O problema são os bordões fáceis que brotam de análises acadêmicas. E das opiniões, ao Deus-Dará dadas (doadas, de graça espargidas, aos borbotões ou aos solavancos empurradas, goela abaixo). Linguagem embotada, "em botas". E a cada nova jornada diária, religiões conjugam verbos legislativos, enquanto outras ficam "aluaradas". E no trânsito, moderno ou tradicional, as formas de vida religiosa anseiam pela perpetuação. Guerra dos deuses e dos homens. Guerrilhas móveis de palavras e gestos das minorias.
         Avanços e recuos com agentes públicos e políticas de Estado. Afinidades com classes e segmentos sociais, estruturalmente definidos e modelados. A sagrada escritura debaixo do braço e as ondas de transmissão verbal, a inserir dizeres nos vetustos versículos. Uma biblioteca, ou selva, floresta de tantos cheiros e cores, "daltonizada" pelas massas ou alguns de seus líderes inspirados ("endeusados" e "desendeusados", no vaivem dos grupos e alianças). Só se sabe que, se cochilar, o cachimbo cai, o trem passa e o susto fica. A fumaça vem logo: branca. Quiça digitalizada em nuvens eletrônicas. Santo Expedito, padroeiro da hipermodernidade. Talvez, nem tanto. Raios do Espírito Santo, de Fogo ou Ramatis em chamas violetas. Costeletas de Adão contra Darwin, totem sagrado de tribos atéias. Uma vela branca diante do busto de Kardec, Congás de diversos tamanhos e formas, estalos de dedos em unidades básicas de saúde. Ervas da mata, amazônica e outras: ancestrais conhecimentos em circulação e ressemantização; agentes populares e sábias mulheres, antigas e fortes. Ou, ainda, memórias reencarnatórias desentranhadas no divã, na ponta do lápis diplomado. Candelabros legitimados diante do evangelho de Marcos. Pronúncias glossolálicas, às vezes em pés de frevo, pobres, frenéticos e negros, de mulher-pastora, ou de virgens que giram. Ou, os sussurros masculinos, brancos rosa-cruzes, de classe média. E dando mais duas pitadas: nas saias da cigana rosa-dourada, de renda ou no reluzente machado que ecoa pela pedreira: Xangô! E la nave va....
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