Budas e bicicletas - perspectivas weberianas sobre ação social e religião

          Embora o título soe estranho, como uma combinação inusitada, essa combinação de imagens remete a dois importantes elementos para se pensar a teoria da ação, da qual Max Weber é original pensador. As bicicletas são usadas para exemplificar a teoria weberiana da ação: basta imaginar dois ciclistas numa rua. Eles pedalam em direção a um mesmo sentido e, apesar de ambos procurarem se desviar, ocorre o choque frontal.
         Eis a ideia central da ação social: o processo de acertar a conduta em função do que o outro faz; mais que isso, trata-se do sentido ou significado que um atribui ao outro, como no exemplo das bicicletas: dobrar à direita ou à esquerda, acelerar ou retardar a marcha.
        Se, por um lado, as bicicletas remetem à teoria da ação social, por outro lado, os Budas suscitam a importância dos valores e ideias religiosoa para a investigação sociológica da ação social. No exercício, por vezes, árido do pensar sociológico ou da análise social, a imaginação é importante qualidade.
 
 
 
Segundo a tradição budista, Sidartha Gautama, o buda histórico, nasceu no clã Shakya, no início do período Magadha (546-324 Antes de Cristo), nas planícies de Lumbini, sul do Nepal. Acreditando que despertara para uma verdade mais profunda inscrita em sua existência (dhamma), transforma-se por uma “iluminação interior”. Seus ensinamentos deram origem a uma das quatro maiores religiões mundiais, o budismo, com diversas tradições e correntes internas.
 
 
Nascido na Turíngia em 1864, Emil Maximilliam Weber, mais conhecido como Max Weber, provém de uma família de industriais e comerciantes. Estudou direito, economia, filosofia e sociologia. Escreveu uma extensa obra, com implicações sobre o pensamento social, exercendo marcante influência sobre muitos pensadores, autores e sociólogos europeus, norte-americanos e brasileiros. Lecionou em diversas universidades alemãs. Em 1889, sofre um colapso nervoso, afastando-se do ensino. Em 1904, viajou aos Estados Unidos, ficando impressionado com a cultura e a sociedade americanas. De volta à Alemanha, profere palestras importantes (“A política e a ciência como vocação”). Em 1920 falece. A difusão de sua obra não seguiu um ritmo uniforme, sendo de forma lenta em alguns países da Europa (França), além enfrentar problemas de tradução. A obra weberiana, contém muitos livros, artigos e conferências, mas um dos clássicos é "A ética protestante e o espirito do capitalismo". O falecido sociólogo brasileiro Antônio Flávio Pierucci trabalhou numa excelente versão da obra pela Companhia das Letras, em que explica o sentido do título e outros aspectos da construção do texto weberiano.


         Parte de um conjunto conhecido como sociologia compreensiva, as teorias da ação social representam uma mudança do foco sociológico: este se desloca da abordagem sociológica das estruturas sociais para a análise das ações sociais ligadas ao indivíduo. Ou seja, para as teorias da ação, o indivíduo tem importância, não sendo, por isso, determinado mecanicamente por uma estrutura. Influenciado por valores morais, éticos, ou pela tradição, ele pode agir socialmente, sendo suas ações dotadas de sentido próprio.
Um dos que contribuíram para desenvolver o poder explicativo de conceitos como o da ação social foi o sociólogo alemão Max Weber. Sua metodologia inspirou o sociólogo Wright Mills, que chamou de "imaginação sociológica" a capacidade de perceber a conexão entre problemas pessoais e estruturas sociais. Algo não muito comum hoje em dia, na medida em que alunos, professores e intelectuais repetem bordões, como “burguesia”, “proletariado”, “neoliberalismo” e “globalização”, sem terem a real dimensão de que tais conceitos gastaram-se e tornaram-se prisões linguisticas. Assim, esses, e outros conceitos, encontram-se banalizados, naturalizadose ou, para citar um termo de meus territórios de origem (antropologia), reificados, transformados em coisas, "pedras" com as quais alguns pretendem guerrear outros.
Para responder a algumas questões que o atormentavam, Weber parte do tema religioso, dentre vários outros. Comparando as grandes religiões mundiais, ele perscruta por que, somente no Ocidente, surgiu o capitalismo como forma hegemônica altamente racional de organização da sociedade. Ele busca desvendar a combinação de fatores, entre os quais os religiosos, que confere singularidade ao mundo ocidental, com sua sociedade moderna, altamente racionalizada e tecnológica, em oposição ao mundo asiático e oriental, com suas sociedades e culturas.
A clássica obra A ética protestante e o espírito do capitalismo é fruto das inquietações de Weber, quando este observa e analisa sua época, o século XIX: um mundo caracterizado por alto grau de burocratização, cuja racionalidade penetra desde os setores da economia, passando por todas as esferas da vida: da arte ao direito, da ciência à política, do sexo à música. Um mundo de administradores, os heróis modernos, os homens da previsão e da provisão. Porém, heróis mancos. Atolados na especialização e distantes da sensibilidade, detêm um saber minucioso sobre um órgão do corpo, mas ignoram sua relação com o todo. As reflexões weberianas deram ensejo a reações de sociólogos e estudiosos que partindo de outros pontos civilizacionais, propuseram outras aproximações entre as éticas orientais e do extremo oriente (a cultura japonesa ou a ética confunciana, por exemplo), e o capitalismo como empreendimento racionalmente orientado.
O processo histórico é opaco, de forma que ninguém pode prever como será a relação entre a intenção contida em um comportamento social e os efeitos do mesmo. As revoluções puritanas culminaram, junto com uma série de mudanças sociais, por exemplo, na afirmação do capitalismo e não no estabelecimento do Reino de Deus, como queria Richard Baxter, pregador puritano na Inglaterra do século XVII.
A realidade social é uma teia de narrativas, e ações, fugindo ao controle totalizador do homem. Nesse sentido, não há existência ou o ser antes da relação. A relação está junto do ser e da existência. Por isso, no âmbito da pretensão da sociologia, o sujeito que a investiga é o seu “ordenador”, buscando compreender, explicativamente, os motivos, as formas e a estruturação do comportamento humano, por meio da ação social. Mas que sujeito é esse? Com certeza um sujeito que não pode mais ser concebido como unívoco, infalível, autocentrado e autocontido na razão instrumental, mas plurívoco e atravessado por narrativas em que emoção e razão estão ambiguamente posicionadas.
Em Economia e Sociedade (volume 1), os básicos conceitos sociológicos sobre ação são perfilados: a ação social seria um comportamento humano em que o agente ou os agentes se relacionam na medida em que atribuem uns aos outros, um sentido subjetivo ao trajeto de suas ações. Significa toda ação que alguém empreende tendo em vista e levando em conta a ação de outrem (indivíduo, grupo, símbolo, entre outros). Que fique claro que o empreende porque atribui um significado às ações desses outrem. Mas, é no confronto entre as esferas de valor, que o sentido é dado e conformado historicamente, sendo, portanto, passível de mudanças. 
As ações sociais podem ser classificadas, de forma ideal-típica (tipo ideal): ação tradicional (tradição e costumes); ação afetiva (afeto e sentimento); ação racional com relação a fins; ação racional com relação a valores.
Enquanto a ação tradicional consiste nos comportamentos baseados em repetição cotidiana, ao longo do tempo (pedir a bênção aos padrinhos, entre outros), a ação afetiva refere-se a todos os estados emocionais, como a ira repentina por uma ofensa.
Já a ação racional com relação a valores é mais complexa: embora o comportamento seja racional, estabelecendo ligação entre meios e fins, ele acontece em função de um valor ou ideal, independente de seu sucesso ou fracasso, ou de outros valores e ideais. Em nome de um ideal, pode-se matar, mentir, roubar. A título de exemplificação, um militante do Green Peace que se joga na frente de um caminhão com lixo tóxico, um homem-bomba muçulmano que acredita na guerra santa, um cristão terrorista que mata médicos praticantes do aborto e assim por diante. Essas atitudes estão justificadas, na medida em que se luta por um ideal acima de tudo. Atente-se para o fato de que os valores mudam com o tempo e variam nas sociedades.
Por fim, a ação racional com relação aos fins: o comportamento é racional em relação aos meios, aos fins e ao objetivo a ser alcançado, o qual não depende de um valor ou ideal. A relação entre meios (instrumentos utilizados) e fins (finalidade a ser alcançada) é realizada em função de considerações práticas que envolvem sucesso, fracasso, riscos, probabilidades, responsabilidades, consequências. É a ação do político, do cientista, do industrial.
Pergunta-se: por que ideal-típica? Simplesmente porque essa é a metodologia usada por Weber. O tipo ideal, como instrumento para compreender a realidade, significa a acentuação de um ou vários pontos de vista. O encadeamento de fenômenos isoladamente difusos ordena-se segundo os pontos de vista unilateralmente acentuados, a fim de se formar um quadro homogêneo de pensamento, mas que não existe na realidade concreta. Por isso, essas ações abordadas acima não existem em estado puro, mas em diversas combinações. Pode-se tomar como exemplo uma vingança planejada com antecedência: é afetiva ou racional com relação a fins?
A ação social dá origem às relações sociais mais duradouras, originando o que será chamado de Igreja, Estado, sociedade, partido, classe. As relações sociais podem ser vistas como feixes de ações soci­ais motivadas por um mesmo conjunto de significados. Podem estruturar comportamentos que se generalizam ou conformar-se numa "estrutura particular de relações sociais", materializando-se em instituições.
Progressivamente, na sociedade ocidental moderno-capitalista, a racionalidade e o cálculo sistemático/metódico entre meios e fins assumirão a preponderância do sentido social. Esse agir, denominado por Habermas como racional-instrumental (a ação racional com relação a fins), vai “contaminar” todas as formas de agir, quer sejam elas baseadas na tradição, nos estados emocionais, ou em “valores últimos” (religiosos ou não). Tal agir acelera o desencantamento do mundo, ou seja, engendra a perda da crença baseada em explicações míticas e sobrenaturais (além ou fora da razão).
Eis a ironia da História: um dos impulsos mais poderosos para que esse agir se tornasse hegemônico foi dado exatamente pela religião protestante puritana. Desde então, iniciou-se uma irresistível marcha de ascensão e espalhou-se para todos os setores da vida e da sociedade. Com pessimismo, Weber chegou a uma constatação: o puritano quis ser vocacionado para uma profissão, mas nós estamos condenados a ser.
A imaginação sociológica em Weber é refinada e irônica, encontrando-se expressa pelo uso da poderosa imagem da gaiola de ferro, nas páginas finais de A ética protestante e o espírito do capitalismo.
Essa religiosidade rigorista e de cunho individual tem suas raízes no judaísmo profético, oriundo dos profetas hebreus que combatiam com fervor, nos séculos V e II antes de Cristo, a magia, o mundo encantado dos deuses, afirmando, por meio de mandamentos éticos a serem cumpridos, a obediência a um deus soberano e juiz rigoroso.
No mundo ocidental, por volta dos séculos XVI e XVII depois de Cristo, que se expandiu essa concepção, dando origem a um novo mundo, do qual somos herdeiros. Esse processo se deu por meio do efeito agregado das ações sociais de novos homens religiosos. Em outras palavras, empresários industriais e trabalhadores protestantes puritanos produziram a moderna sociedade capitalista baseada no império da ação racional-instrumental. Isso foi possível graças ao efeito acumulado e não-intencional de sua ação: orar, poupar para reinvestir no próprio negócio, ser extremamente disciplinado, conter o consumo. Injustamente tachado como anti-Marx, idealista liberal com tendências de direita que só acredita na força das idéias, Weber nunca afirmou que o mundo é movido pelas idéias. Pelo contrário, ele defendeu a existência de uma afinidade entre interesses e valores.
E os Budas? A resposta é simples: estão passeando de bicicleta. Enquanto isso, alguns esperam a irrupção de um carisma que quebre a gaiola de ferro. Resta saber se haverá prisioneiros dessa pesada herança. Apenas uma verdade nos sustenta: nada no futuro, nem toda ciência do homem, poderá dizer que sim ou que não com absoluta certeza. No entanto, novas linguagens e formas de abordar o assunto podem abrir gaiolas enferrujadas nas quais muitos conceitos sociológicos encontram-se presos e pouco úteis para ajudar a compreender as vertiginosas transformações que vivemos hoje.
 
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