Religião, bem-estar e projeto de vida: reflexões sócio-literárias

          Na peça “La vida és sueño”, Pedro Calderón de La Barca, dramaturgo espanhol (século XVI), escreveu: “toda la vida es sueño, y los sueños, sueños son”. Hoje, confrontados com a realidade, sempre dura, alguns podem se perguntar: como pode um sonho dividir planilhas, lideranças autoritárias, "carneirices" de esquerda, de direita, evagélicas, católicas, atéias e tantas mais? carne
No entanto, a história nos mostra que os maiores empreendedores capitalistas sonharam e imaginaram novos horizontes, novos mundos: de Henry Ford a Bill Gattes, mundos novos foram erguidos, e vastas transformações imprimiram às relações sociais, pessoais, profissionais e educacionais novos padrões.
Ampliou-se a liberdade. Limites continuamente extrapolados a partir de novas invenções e tecnologias, por meio do consumo e do mercado, mudaram nossas relações com o tempo, com as pessoas, com a família, enfim, com a nossa própria forma de amar e ser amado.
          Tudo isso foi possível, apesar dos riscos de admiráveis mundos novos, só para lembrar a feroz crítica do escritor Aldous Huxley, na obra Admirável Mundo Novo, em 1931: sociedades perversas, com inextrincáveis mecanismos de dominação, manipulação genética e ideológica, com felicidade produzida por aplicações químicas.
          Se os empreendedores, dia a dia, não houvessem sonhado e ousado perseguir seus sonhos, nosso mundo seria o mesmo de sempre, com suas monotonias e impossibilidades. Evocando palavras evangélicas, Jesus, “Onde está teu tesouro, aí está teu coração”, pode-se dizer: onde estão seus sonhos, está seu coração.
          Viver de sonhos é caminhar sobre fragilidades que, de repente, se adensam; viver sem sonhos é deixar-se arrastar pela mediocridade de uma vida mergulhada em completa inabilidade para sentir e ir além dos limites dos mundos particulares. O desafio é aliar sensibilidade e razão de forma que novos mundos adormecidos em cada ideia acordem e realizem-se.
          Faz-me refletir. Na barroca cidade de Goiás Velho, a poeta Cora Coralina, mulher de garra e fibra, cozinhava doces para sustentar a família e, à luz de velas, depois que os filhos dormiam, escrevia poemas de cujos versos me valho: “O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher”.
         De fato, diante de tantas barreiras emocionais, familiares, financeiras, profissionais, afetivas, desejamos que aquele dia, aquela decisão, aquele sim ou aquele não nunca tivessem acontecido ou sido ditos; que nunca tivéssemos atravessado o caminho daquela pessoa... Mas, isso é impossível.
          Entretanto, ainda que nada possa mudar o ponto de partida, podemos mudar o rumo, elaborar outro enredo para a nossa história de vida, para a nossa família, para a nossa cidade, enfim, para a sociedade. E quanto mais empreendermos juntos, mais concreta se torna a realidade. 
          Como é bom a colheita de uma semeadura, de um cuidado realizado noite adentro, de dias cansativos com correrias, dúvidas, sorrisos e lágrimas. Mas, como cultivar em meio a intempéries paradoxais: economia nos trilhos e educação num desando só.
          Por outro lado, ao mesmo tempo, esta noite é ponto de partida, ou parada provisória, rumo a outros caminhos, a outras trilhas, a outras caminhadas, ecoando as palavras de Cora Coralina: não importa de onde vocês partem, mas aonde vocês querem chegar. Qual é o rumo a ser traçado?  
         Uma vida bem sucedida? E, mais uma vez, a filosofia, a sociologia, a antropologia, menos como disciplinas e mais como perspectivas, importantes na formação humana, tantas vezes vistas como mero coadjuvantes, impelem-nos a perguntar: o que é uma vida bem sucedida? Ou por outra, uma vida bem sucedida pode ser mensurada através de sinais ou resultados? Não me venham argumentar com o mais barato senso comum nesses momentos: depende do ponto de vista...
           Há sinais seguros para se responder a essa pergunta. Sinais, não certezas... Novamente com Cora Coralina: “semeando e caminhando, terás o que colher”. Se, próximo do fim de uma jornada, virarem o rosto e perceberem que não têm mais os amigos a quem tanto amam; se receberem de seus futuros funcionários ou colegas de trabalho um sorriso amarelo em resposta ao seu cumprimento, saberão quantas boas sementes desperdiçaram. Mas não precisamos ter medo.
          Há um século, com a obra A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber, analisou a longa cadeia de eventos e afinidades que amalgamaram o puritanismo protestante e o impulso da empresa racional, resultando na constituição do capitalismo como força motriz da história. 
          Diante do avanço das forças impessoais do cálculo e da racionalidade instrumental que media a relação entre meios e fins, a fim de obter resultados, eficiência e eficácia (horizonte teleológico maior da humanidade), Max Weber dizia: “Ninguém sabe, todavia, quem habitará no futuro este invólucro vazio, ninguém sabe se ao fim desse prodigioso desenvolvimento surgirão novos profetas ou renascerão com força antigas crenças e ideais, ou se, à falta disso, não se perpetuará a petrificação mecanizada guarnecida de um tipo de convulsivo sentir-se importante. Neste caso, os 'últimos homens' desta cultura farão verdade aquela frase: 'especialistas sem espírito, hedonistas sem coração, essas nulidades se imaginam ter alcançado um estágio da humanidade superior a todos os anteriores'".
          Que homem, ou mulher, pode surgir dessa situação senão aquele, ou aquela, que se vangloria de ser não um sábio que fala sobre tudo e todos, mas um especialista? São assim o homem e a mulher modernos. Ele ou ela querem mostrar entendimento de um determinado assunto e, como tal, têm sua utilidade no mercado. “Expert” ou especialista – eis um nome que a modernidade cultua. Aos  expert sem inteligência” Weber não poupa críticas: Que homem ou mulher pode surgir de relações frias “do pagamento à vista” senão o hedonista, ou seja, aquele que quer apenas o gozo? Todavia, trata-se do hedonista vulgar, a quem Weber chama de “hedonista sem coração”: sem espírito, sem a devida harmonia de conduta do hedonista sábio que, mais do que ninguém, sabe preencher seu peito com gozos plenos e construtivos.
          Se sua sensibilidade, sua emoção, sua humanidade, seu sonho sucumbirem perante o cálculo financeiro e seus píncaros de glórias, você se tornou um hedonista sem coração, um especialista sem inteligência... Esvaem-se os traços de poesia, soterra-se o homem debaixo das equações.
          E não é por causa disso que o mundo hoje caminha rumo a precipícios climáticos? Quando o lucro e o cálculo poderão ser reconciliados com a busca da igualdade social e com a garantia da liberdade e da felicidade individual? Pode haver tal conciliação? Ou, inversamente, é possível manter a tensão entre essas duas instâncias poderosas de forma que haja uma sociedade melhor, inclusiva, com criatividade e liberdade? Prefiro responder, lembrando a famosa canção de John Lennon e Paul McCartney: “Oh, I believe in yesterday...”.



 
         Sim, eu acredito que o mundo se concretiza quando nossas crenças são feitas a partir de nossos gestos e atitudes, e de nossas linguagens melhoradas, catapultas de sonhos e esperanças. E assim, atravessam distâncias enormes e áridas, de dogmas religiosos estatuídos, estatutos de poder sacral, invólucros com profundos desejos de poder, inclusive sexual. O poder de usufruir em fúria, porque há uma busca dolorosa pelo prazer, eivada de culpas, atormentada, uma couraça dura, constituída de imensas fragilidades, as quais, explodem, às vezes, em perversões. E uma estranha dança, macaba, entre a cosmologia religiosa, imaginário e misoginias emergem como cabeças de medusa. Para os fiéis, o líder é santo, está sendo perseguido politciamente, mas bem se sabe o quanto a fusão de autoritarismo, legitimação religiosa e desejos perversos produz trasngressões e crimes. O bem-estar coletivo está garantido em uma sociedade democrática, cujos órgãos de investigação e justiça funcionem, mesmo que com tropeços, às vezez com tropeços, mas catapultando a mistura 'ensimesmada' de religião, dinheiro e poder seja entre católicos, evangélicos ou outra religião qualquer, ou nenhuma. 
          Embalando-me no refrão de Lulu Santos (“Assim caminha a humanidade com passos de formiga e sem vontade”), indago-lhes: para onde caminham seus passos? Seus pés se encontram onde estão seus desejos? Portanto, olhem por onde colocam seus desejos para que seus pés caminhem sobre sendas iluminadas onde poderão colher frutos saborosos para si e para partilhar com os outros.
         É possível considerar o lúdico e o prazeroso como prerrogativas para ato de aprender. Entretanto, a verdade é que aprender é isso, mas também perceber que pensar dói. Para aprender novas habilidades e novas maneiras de pensar, exige-se sacrifício e empenho, suor e neurônios. Hoje, o aprender se dá em rede (ciberespaço da formação), de forma cooperativa e com poucas hierarquias. Um aprendizado permanente, consciente, mas também sensível.
         Francisco Imbernón, educador espanhol afirmava: a reflexão deve “atravessar as paredes da instituição para analisar todo tipo de interesses subjacentes à realidade social, com o objetivo concreto de obter a emancipação das pessoas”.
          Qual seu projeto de vida? Nossos projetos não são neutros, não podem ser reduzidos somente a cálculos de equação matemática. Pelo contrário, são complexos, porque são atos políticos, atos de poder, como nos ensina Michel Foucault, em sua crítica à relação saber-poder.
          Para o economista Donald Schön, há, por um lado, um crescente sentimento de angústia, resultado do impacto de escolhas erradas, da falta de planejamento e de rumo. Muitos estão como um barco à vela cujo leme encontra-se abandonado. O barco irá para onde soprar o vento. A deriva aumenta a frustração com as atividades profissionais,  com o casamento, com o que se faz nos dias de  folga, com  a  situação  financeira,  com  os  relacionamentos construídos. Por outro lado, ele identifica também um otimismo exagerado, desconectado do real e dos desafios que nos são impostos. E pensar que existem programas de treinamento de administradores que prometem a possibilidade de, em uma semana, descendo por raftings, pulando em camas de elástico, soprando balões azuis, aumentar a habilidade de lidar com pessoas, promover empatias, entre outras prodigiosas promessas. Esses programas premiam os participantes com “novos poderes” multiplicadores do rendimento e aperfeiçoadores da capacidade de obter lucros.
          De repente, no mundo profissional de tantas pessoas e empresas, começaram a surgir palestras semelhantes às pregações religiosas: empolgantes, desconectadas das realidades de vida ou, como se diz num velho e bom jargão, do “chão de fábrica e de escritório”. De mãos dadas, cantando e sorrindo, todos dizem mantras, empanturrando-se de “prozacs”. Não quero dizer que cantar, dançar, repetir mantras não seja positivo; apenas quero advertir que a realidade é muito mais rica do que livros de receita...
          Projetos devem ser vistos como ‘trilhas’ a serem perseguidas e não como ‘trilhos’ que limitam a atuação. Em nossa formação acadêmica, em nossos projetos de vida e em nossa atuação profissional, os planos têm que ser constantemente reavaliados à luz das mudanças nas expectativas sociais e ambientais. É preciso, muitas vezes, alterar a rota, mudar, adiar, ou, até mesmo, abandonar e elaborar novos planos em função de novas perspectivas. Nem mesmo um projeto de engenharia ou informática, onde o pragmatismo vigora a pleno vapor, é possível elaborar planos completamente imutáveis.
          A vida se materializa através do caminho percorrido e das estações atingidas e não pela chegada ao fim de uma linha ou trajetória. O projeto de vida não pode ignorar novos e antigos elementos como: a constante evolução dos meios de comunicação e das novas tecnologias; a interconexão entre o todo e a parte (clima, ambiente, mercado, cidadania); os desequilíbrios estruturais e as necessidades, sempre intensas. Por isso é fundamental saber lidar com as mudanças,  uma  das  habilidades contemporâneas mais essenciais.
          No decorrer de nossos caminhos, de seus caminhos, diletos formandos e formandas, a meta e o horizonte a serrem buscados, dia a dia, são o equilíbrio entre a razão e a sensibilidade, a emoção e o raciocínio, os números e os abraços, os livros e os cálculos. Muitas respostas às crescentes perguntas que nos fazemos sobre o nosso futuro e o do outros, sobre o futuro das sociedades e o do mundo podem ser buscadas.
          Uma delas talvez possa ser encontrada em uma carta deixada por um prisioneiro que viveu os horrores da Segunda Grande Guerra, no Campo de Concentração Nazista de Auschwitz-Birkenau, localizado no sul da Polônia, símbolo do Holocausto perpetrado pelo nazismo, da qual extraio alguns trechos: “crianças envenenadas por médicos diplomados; recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas; mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades”. Diante desse quadro horrível pede aos professores que “ajudem seus alunos a tornarem-se humanos” (simplesmente humanos). E termina: “ler, escrever e aritmética só são importantes para fazer nossas crianças mais humanas”.
         
         Há um trabalho de memória em andamento, de ressignificação: a comissão da verdade vem mostrando tantas coisas esquecidas, inclusive a colaboração de igrejas e profissionais do sagrado com a Ditadura Militar e seus crimes. O estar-bem passa por desocultamentos, coisas que só relatos e pessoas que relatam, do fundo de suas dores, podem fazer. A teia da linguagem tece novos mundos de esperança e clareza. Alguns poderão dizer, embasados na filosofia de Clement Rosset que, para o crente, nenhuma realidade pode ser maior ou pode derrotar sua crença. Para os que acreditam que a Ditadura Militar foi a Gloriosa Revolução ou outra crença qualquer, em geral política e religiosa, a realidade é triunfalmente derrotada, mesmo que à sua frente documentos, lágrimas, gritos, corpos, se ergam. Um sujeito que, diante do chão abrindo uma estrada enorme, diz que nada há... Por aí se vê que a distância entre a realidade e a linguagem pode ser patológica, doentia, e requer atitudes corajosas, determinadas, novos vocabulários, e assim, como lembra Richard Rorty, melhores versões de nós mesmos serão construídas.
         Termino com uma citação do poeta e escritor Khalil Gibran: “O pássaro e o homem têm essências diferentes. O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas; o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos. Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra. Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos. Muitos levantam a cabeça acima dos montes; mas sua alma jaz nas trevas das cavernas. [...] Uma coisa merece nosso amor e nossa dedicação... É o despertar de algo no fundo da alma. [...] Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.”
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