Morte e religião - fiesta de los muertos, santinhos e pequenas notas da longa sinfonia da vida

          Um pigarro. E olhei para trás. Passando perto do cemitério, impossível foi não ouvir a conversa entre uma mãe e um filho pequeno. Talvez com oito anos.
          Olhei acima dos muros. Um anjo de mármore, marrom, parecia sorrir. Para quem? Não sei. E do lado, a voz hesitante da mãe. Crianças sempre colocam os adultos em embaraços e desconcertos. Sair deles é uma bela tarefa. Na corrida de palavras, todas emboladas, para explicar um fenômeno para lá de complexo, que movimenta religiões, filosofias, a mãe dizia ao pequeno: “A morte a gente nunca sabe quando vem. Ela sempre te pega de calças curtas”.
           De onde menos se espera, vem o tropeço. Mal a mãe sorria como o marrom nos lábios do anjo, recebeu um tiro curto e seco. Humor infantil. Um dos melhores e mais saborosos: “Então, mãe, não adianta comprar calça comprida, né?”. Não me contive. Ri, ao dobrar a esquina e sair do olhar de soslaio lançado. Acelerei o passo e cruzei o limite do muro da necrópole. Cidade dos mortos. Assim os gregos davam o nome ao local em que os que viveram dormem. Depósito de memória.
          A calça curta voltava à minha mente. Velha expressão. A significar desprevenido, de surpresa, sem planejamento. A morte é, no entanto, fato líquido e certo. É preferível fingir que se dorme. Cemitério é vasto dormitório, dizem alguns. Outra vez os gregos: koimitérion, lugar onde todos dormem e do qual ninguém levanta. Meus passos apressados (sob o medo de ser seguido por uma alma do outro mundo...) e o riso contido até sair da cidade dos mortos, levaram-me a um pensar: seria possível cantar e sorrir nesse lugar?  Os Góticos reúnem-se funebremente em torno das moradas dos mortos. Credo em cruz! Só de pensar nisso...Expressão popular, seguida de um sinal da cruz que, em alguns lugares, o sujeito faz rápido, os dedos se trombando um no outro. Umas sombras e capas pretas, batons escuros e botinas. No México, a morte tem até vela, flores e altar. É a Santa Morte.
          Muitos padres mexicanos ficam de cabelo em pé quando seus paroquianos levam uma pequena caveira vestida de branco para ser benta. E com direito a festa nos cemitérios: a Fiesta de los Muertos. Comida e dança nos cemitérios. Herança asteca. E quem disse que em tempos de globalização, essa festa ficou lá no México, nas cidades e aldeias profundas? Não. Veio para o Brasil, mudou, mesclou-se, deslocou-se, desterritorializou-se e reterritorializou-se. Tirinhas do necro: uma caveirinha a gozar das pessoas. E na literatura infantil? A turma da Mônica, o Penadinho, personagem famoso de Maurício de Souza. nem vou aprofunmdar nas culturais regionais brasileiras, portadores de muitas histórias, sem falar nas cosmologias indígenas salpicadas por esse Brasil de meu Deus, ou dos deuses, ou das energias, ou dos orixias, ou do Espírito Santo. Só não vale ser o da casa da Mãe Joana, onde todo mundo mete a mão.
          Dizem que contrapondo-se, por um lado, e/ou ressoando junto, com a clássica festa na qual se ouve: doce ou travessuras? O famoso hallowen. Que, por sua vez, provém de tradições distintas, celta e pagã, reconfigurada em solo americano, a partir dos contrapontos do protestantismo puritano. Contudo, a Santa Morte se tornou um culto popular entre policiais e bandidos mexicanos. Dizem que protege das balas e encaminha para uma boa morte. Isso é porque o culto não chegou ao Rio de Janeiro ou em outra grande metrópole brasileira. Aqui abririam uma catedral. Ou não. A cultura é dinâmica, linhas de fuga e linhas de centramento, fluxos e refluxos, sempre. No Brasil, havia um belo culto, sobre essa temática: Nossa Senhora da Boa Morte.
          Outro ponto são os fenômenos de santificação popular: criminosos que em vida cometeram inúmeros crimes, ao morrer de forma desumana e cruel, tornam-se santos aos olhos de muitas pessoas, e seus locais de sepultamento, locais de culto. E quando os mortos são crianças pequenas, os santos anjos inocentes? Em muitos cemitérios são cultuadas e celebradas. Às vezes com tristeza, outras de forma bem interessante. Em Belém, a bela capital do estado do Pará (terra de meu amor), tem um cemitério (cemitério da Soledade, com muitas crinças e famílias de origem espanhola) e um túmulo de uma criança: o sacro lugar onde está "zezinho", em torno do qual se espalham balas, brinquedos, roupas e velas. orações e preces esperançosas são formuladas.
       Vestiu-se a pequena estátua. Volta e meia trocam a roupa. E todas as segundas-feiras, na porta do cemitério, velas e orações são vendidas e disponibilizadas. Para o menino e outros (as 13 Almas Benditas.) No meio do cemitério, um cruzeiro de almas, muito comum no Brasil. Ao lado, a foto do "zezinho".
          E o que falar dos antigos velórios, ainda presentes em muitas cidades do interior mineiro? Na sala, o morto. Olhares tristes e solenes. Vozes baixas. Aqueles que chegam tocam o morto e fazem o sinal da cruz. Nos fundos da casa, cachaça, linguiça pão, piadas. Um tom de voz mais alto é logo sucedido por um, fale baixo. Beber, ou comer, o morto.
          E na música? Quando eu morrer não quero choro e nem vela, quero fita amarela, ouve-se, dedilhado no violão, um refrão de música famosa.
                Diabos, (opa, ele não deveria estar aqui...) e o culto mexicano? A origem é incerta. Talvez um culto pré-hispânico que se manteve apesar da oposição da Igreja Católica. Outros dizem que sua raiz liga-se ao culto a Mictlantecuhtli. Nome complicado, não é? Trava a língua. Na mitologia asteca é o deus da morte, senhor do Mictlán, o silencioso reino dos mortos. Só se ouvem sonoros roncos. Mictlantecuhtli era representado como um esqueleto ou sua cabeça em forma de caveira. Mas a celebração é alegre e as oferendas à Santa Morte são maçãs, doces, pão, licor. E adivinha qual a data de seu culto? Dia dois de novembro, dia de finados.
           Sem temor da morte... Só não vale cantar sertanejo açucarado e botinas bambis ou aqueles trompetes estridentes com os chapelões de aba gigantesca: os defuntos revirariam no túmulo. Brincadeira. Em festa vale tudo, ou quase.
           No entanto, um dado concreto “esfola” a vista: o medo da morte é política de Estado. Todo mundo deve fugir da morte como o diabo da cruz. E mais do que isso, procurar a bendita vida saudável. E ficamos entre uma corda bamba.
         E, para terminar (este texto...) vejam só como as coisas estão complicadas para quem pensa e se expressa diferente. Paulo Ubiratan, médico porto-alegrense, ao conceder uma entrevista à TV Local, foi criticado duramente a respeito desua ironia aos vários conselhos de saúde sempre dados. Como a Santa Morte, solenemente, riu e destratou. Só vou citar alguns deles. Ao ser perguntado se os exercícios cardiovasculares prolongam a vida, ele respondeu: “O coração foi feito para bater por uma quantidade de vezes e só. Não desperdice essas batidas em exercícios. Tudo se gasta. Acelerar seu coração não vai fazer você viver mais: isso é como dizer que você pode prolongar a vida do seu carro dirigindo mais depressa. Quer viver mais? Tire uma soneca!”. Alguns diriam, vou economizar dinheiro com a academia de ginástica...
           Mas, porque não fazer ginástica? Correr, caminhar? Só não exagere. Esta afirmativa do médico porto-alegrense é fulminante (noutro sentido...): “A vida não deve ser uma viagem para o túmulo, com a intenção de chegar lá são e salvo, com um corpo atraente e bem preservado. Melhor enfiar o pé na jaca e um corpo completamente gasto, gritando: valeu, que viagem!” Talvez assim, a morte não pegue de calças curtas, ou pelo menos, ao chegar, possa-se dizer, olhando-a de frente: “Valeu a pena viver!”.
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