Crenças religiosas e não religiosas: entre verdades incertas e certezas frágeis

Fonte: http://capinaremos.com/2008/09/30/tabela-de-crencas/
   Em que medida nós somos capazes de aceitar críticas? Talvez em medidas justas, nem tanto ao céu, nem tanto a terra. Desde que as críticas sejam justas, poderia retrucar-se.
Um crente (de modo geral), firmemente alicerçado em sua crença, é capaz de abrir-se àS críticas? Será que ele se vê como um castelo inexpugnável, defendendo-se do ataque de hordas relativistas? Ou será a imagem do castelo isolado sob o ataque uma espécie de 'etnocentrismo'? Uma crença, firmemente defendida é capaz de tudo, diriam alguns.
A depender de um filósofo francês, Clèment Rosset, inserido na longa linhagem da filosofia trágica, a crença é uma trava contra a realidade (ROSSET, Clemente. O princípio da crueldade). De fato, a verdade incômoda assusta. Para Rosset, se for filosófica, será sempre incerta. Mas, o "sempre" não deve ser levado em conta. Nem por essa certeza deve-se ir para o martírio, elas devem ficar suspensas, senão carregam, em si mesmas, as forças das quais gostariam de fugir.
Uma verdade certa (tida como certa ou defendida como tal acima de todas as dúvidas, nos altos céus da história, se automutila: corta fora a dúvida e deixa de ser filosófica, instigante, provocadora.
A verdade incerta é instada a sair de si, não para perder-se, mas simplesmente para interrogar-se, interrogar os outros. Mas, a verdade certa se torna outro tipo de verdade, comum entre muitos crentes, religiosos ou políticos. As verdades certas habitam o mundo das crenças, em geral. As crenças endurecidas pelas verdades certas podem ser notadas, inclusive, entre muitos militantes políticos ou ateus que agem de forma militante, dedicando suas vidas (publicando livros, caçando provas, fazendo até marketing) a provar a não existência de Deus, numa cruzada inversa dos religiosos que querem provar, a todo custo, a existência de Deus.
Uma crença forte demonstra muitas vezes, apenas o seu próprio valor, não o valor do conteúdo defendido com unhas e dentes. Por isso, quem está convencido de sua crença não se 'desconvence'. Pelo menos não tão facilmente. Nem 'pingando' algumas realidades nos olhos, como se fossem colírios abrasivos. Olhos escuros, não por algum defeito ou ilusão da realidade, olhos escuros porque há escuridão dentro de si. Esses olhos só enxergam escuridão ao olharem fora. Nesse sentido, são os próprios indivíduos que se automotivam a não levar em consideração sinais, sintomas ou signos das realidades que desafiam suas crenças estabelecidas. Rosset diz: faculdade da anti-percepção.
Alguém já sussurrou: para que ser sincero e direto com os piamente crentes? Para ser contestado e desafiado? Esses crentes só desejam acreditar. Contra toda realidade (ou realidades) anseiam crer, e quanto maior é este anseio, maior é fragilidade da crença. Se eu creio (num sentido fraco) não terei medo de ir ao encontro do outro, estar com ele. Rosset não endossaria esses argumentos. Mas, estou apenas refletindo, testando casos-limites e explorando outras possibilidades discursivas.
Qualquer religião (ou partido) baseada em crenças fortes pode (dependendo do caso) operar duas vias de reconstrução do real: subvalorização ou negação de tudo que vem de encontro à crença e supervalorização ou valorização de tudo que vai ao encontro.
Nesses casos, idealizam-se romanticamente, posturas, ideias e comportamentos relativos às crenças próximas (romantismo positivo) e também as distantes (romantismo negativo). O atual cenário político-religioso brasileiro é rico de exemplos: a comissão do Deputado Feliciano, os "direitopatas" (vendo comunismo em todo lugar) e os "esquerdopatas" (não vendo corrupção entre eles, onde de fato existiu). Na avalanche de crenças, muitos tombam, mesmo sem ter cometido crimes, embora alguns possam ser responsabilizados por crimes e culpas.
As paixões que a crença mobiliza, acirram-se. Apela-se para tudo: desde xingamentos, luta de classes, revelação divina e um rosário de ideias e noções, freneticamente brandidas. Ou seria, na verdade, a sociedade que chancelaria representações sociais sobre determinados elementos, grupos, valores, minorias sociais, dando a crença seu alto poder moral, impondo e distorcendo as outras possíveis realidades e existências? Talvez a crença, e o ato de crer, não sejam tão voluntários e individuais como a imagem bem-humorada sugere: feche os olhos e escolha no que crer e cultuar (da natureza ao herói do neo-ateísmo, Richard Dawkins).
Substantivar ou naturalizar o crer e a crença não são estratégias de compreensão úteis numa sociedade multicultural, pluralista e com tantas agendas políticas, econômicas e religiosas a serem enfrentadas.
É preciso, então, perceber que as imagens formadas socialmente difundem-se e são sustentadas pela opinião pública (e pela opinião publicada) suscitando maior ou menor adesão, ou seja, suscitando, e precipitando, um fundamento 'legítimo' e 'válido', que subjaz a crença. E é a partir desse fundamento que ações, comportamentos e atitudes são empreendidos.
Legítimo e válido para determinado grupo ou pessoa. Caso outro grupo ou pessoa descreia no fundamento tido como legítimo ou elabore outra crença, pode ser objeto de uma retórica da aniquilação (Peter Berger e Thomas Luckmann, A construção social da realidade). Num sentido sociológico, as distintas representações da crença estão mais próximas à estrutura performática de figuras, imagens e sujeitos, do que com as expressões múltiplas do real ou das múltiplas realidades. Daí, o bloqueio a tudo aquilo (imaginado ou real) que ameaçaria a crença. Os grupos religiosos que se recusam a sentar, e a estar num mesmo espaço público com outros grupos (diferentes de sua crença, obviamente), demonstram isso.
Um grupo de alunos evangélicos que se recusa a fazer um trabalho acadêmico sobre as religiões africanas, um grupo de alunos que se recusa a ler os textos de Karl Marx ou um grupo de esquerda que não consegue admitir casos de corrupção debaixo do próprio nariz, têm em comum essa fragilidade da certeza que, para não quebrar-se como um cristal, precisa ser involucrada ou envolvida sob fortes camadas de negação, retórica ou imaturidade.
Tudo em nome de uma fé ou uma crença. Quanto ao grupo de esquerda, pode haver uma estratégia sofisticada: para os de 'fora' negam a corrupção, para os 'dentro' (seu grupo político), é como se dissessem: fizemos o que fizemos em nome da revolução e da mudança social.
A forte rejeição (com tons fóbicos ou patológicos) do comportamento e da crença dos outros (indivíduos e grupos) demonstra a fragilidade da crença e do comportamento daquele que rejeita. Aqueles que rejeitam patologicamente outras possibilidades de ser e de viver tornam-se um 'outro' afundado na singularidade e essência (suposta) de sua diferença, rejeitando aos outros "Outros", a singularidade e a diferença de ser, viver, crer, fazer e agir.
 Por isso, a irrupção de outras crenças e modos sociais de relações humanas no mesmo espaço social, demonstra a viabilidade e a plausibilidade de outras possibilidades existenciais. Outros modos de ser e crer são possíveis, outras maneiras de crer também. Ou seja, a "verdade" pode não estar (parcial ou totalmente) com meu grupo, comigo.
 As verdades (partes ou totalidades) podem estar um pouco (ou muito) com os outros, com os 'diferentes-de-mim' ou 'diferentes-de-nós'. Assim, as crenças construídas ao longo de tanto tempo e que reuniram tanto esforço e trabalho para serem inculcadas - construídas como se fossem uma natureza autoevidente e forte, diante da qual os outros devem ajoelhar-se - podem simplesmente não ter fundamento algum.
Podem ser questionadas por tantos elementos: dados empíricos de pesquisas, ideias, imagens, palavras, gestos. E isso é simplesmente difícil de ser admitido. O mais comum é continuar cada vez mais agressivamente a afirmar a própria crença.
É quase possível afirmar que o nível de agressividade é proporcional a fragilidade da certeza. Afinal, se uma certeza é forte, não precisa ser toda hora defendida, afirmada e expandida em direção a outras crenças ou outros comportamentos com a finalidade de submetê-los, dominá-los ou subalternizá-los.
Por isso, alguns tipos de crença (as baseadas em verdades certas), não só recusam evidências, como ainda usam os elementos que a questionam para retroalimentarem as si mesmas. Nas redes sociais cibernéticas esse estado de recusa da percepção é muito comum.
Somem-se a isso, os perfis falsos no Facebook e outras redes eletrônicas, são usados como base de propagação de informações falsas, montagens e outras formas de mistura e de mescla, verossimilhanças. Frases e notícias circulam com tanta facilidade que reforçam sentimentos duros e ligados a crenças religiosas, morais e outras.
No terreno de muitas crenças, a certeza não costuma dialogar com as verdades incertas. As verdades incertas possuem propriedades interessantes, entre as quais: não tornam as crenças impermeáveis às interpelações trazidas por outras dimensões da vida e não precisam de mártires. O martírio é tão insidioso e matreiro, que pode ser brandido por qualquer um.
Basta uma verdade certa (tão certa, a ponto de uma pessoa possa sentir-se autorizada a fazer qualquer coisa para defendê-la) que as crueldades brotam sem cessar. Um simples pai de família será capaz de torturar e matar. Ou ainda, deslocando a perspectiva da "vítima" em direção à perspectiva do "algoz", basta uma verdade certa pela qual uma pessoa se sente juiz (dono, rei, mártir, herói ou outro) para que a humanidade dos outros seja arranhada ou mesmo desapareça, e toda violência seja justificada.
Desfigura-se o "outro", pois se imagina que é impossível encontrar uma humanidade feita à semelhança e ao modo de "si mesmo". Não se reconhece mais o outro. Não reconheço o outro em mim. A desfiguração do humano está ligada ao modo de responder e medo e as inseguranças existenciais.
Para lidar com as constantes mudanças, opta-se pelo enrijecimento da crença, que como carcaça, já não contém mais o viço e a vida, estacionada numa repetição performática ad nauseam.
Condena-se a repetir-se, pois não suporta ver a própria desfiguração e fragilidade e, portanto, projeta-se para fora, em fuga desabalada. Uma medusa às avessas, para dentro de si.
Mas, para Clement Rosset a verdade incerta não é antídoto contra a impermeabilização da crença. A verdade incerta é preventiva, mas não curativa. A verdade preventiva só é possível para aquele que não está "mordido” pela crença.
A crença não requer cura, pois ela é autoimune a tudo aquilo que possa questioná-la, ou seja, a crença que alguém porta é "incurável". Pode-se tentar de tudo. As teorias conspiratórias estão aí, das mais variadas formas e tons: espécies de alienígenas vivendo entre nós.
Mas, existem outras variáveis interessantes sobre a questão da crença e do crer. Em 1947, dois psicólogos sociais Allport e Postman (The Psychology of Rumor. New York, 1947) estudaram a forma como se propagam boatos, formando as redes em que as crenças.
As crenças são fenômenos coletivos também. Nascem no seio de coletividades, comunidades e grupos sociais, nascem de imaginários alimentados por narrativas que podem gerar imagens distorcidas das realidades e, assim, alimentar preconceitos e etnocentrismos. As crenças propagam-se, como se fossem "ondas", ou tsunamis, dependendo da força.
 As crenças antissemitas varreram a Europa durante séculos, estendendo-se até a Segunda Grande Guerra Mundial (e ainda continuam vivas em muitos setores e sociedades) e milhões de judeus pagaram com a vida a alta fatura imposta pela distorção e pelo estereótipo social que acompanham as crenças.
Outro exemplo são os ciganos, que também sofrem repetidamente com essas crenças renitentes sobre sua cultura, seu modo de ser e de viver. Apesar de a imagem remeter a fluidez (onda, movimento), essas e outras crenças podem ser vistas como estruturas de longa duração. E além de longa é transnacional. Essas movimentações de crenças, ao longo do tempo e do espaço, podem sofrer variações na forma e no conteúdo.
Mas, o problema teórico é essencializar ou naturalizar a crença, reificando-a, transformando-a num sujeito metafísico, acima de história e dos contextos históricos-sociais.
A crença é produto social, formada por tessituras compostas de desejos, imagens, estereótipos e esquemas míticos. A crença, ou as crenças, também produzem o social, as realidades vividas pelos grupos e indivíduos. E essas realidades aparecem como totais e plenas de sentido. Ou, não.
Quando grupos ou indivíduos se acham imbuídos de uma missão, revelação, promessa divina ou mandato e procuram exercer o que chamam de verdades em um espaço público ou para além do seu território social, pode ocorrer a retórica da aniquilação. A disputa de construções de crença por plausibilidade demonstra a existência de projetos de poder ligados aos movimentos de crença. Contudo, não é possível reduzir tudo a uma única causa.
 A lição weberiana sobre a história e a dinâmica social é clara, inconfundível e atual. Múltiplos são os fatores, causas e afinidades eletivas que produzem as relações e fenômenos sociais, que, no rastro da história, estão sujeitas a trajetórias contingentes, não necessariamente ligadas a uma lógica rígida, completamente previsível e planeável.
Sabe-se que Weber tinha algum pessimismo sobre as tendências históricas, especialmente nas últimas páginas de seu clássico livro (A ética protestante e o 'espírito' do capitalismo), embora não fechasse a "gaiola de aço" da modernidade, ou seja, não encerrava numa única possibilidade, o horizonte da história dos homens, mulheres e sociedades.    
Crenças religiosas ou não religiosas podem ser abertas, ou fechadas sobre si mesmas. Se abertas, não precisam temer outras. Se fechadas, precisam sempre vigiar as próprias trancas.
O problema é que em muitos momentos, as crenças trancadas em si mesmas não são acessíveis aos argumentos dialogais e produzem ruído. Um ruído marcial, de guerra, de vontade de submissão do outro, de minimização dos direitos do outro. Acredita-se que é o outro que invade e abusa dos direitos.
Na verdade, é uma inversão simbólica, uma característica da retórica da aniquilação: a ameaça é o outro, está com o outro, nós "apenas" nos defendemos contra o avanço indevido dos outros. Mas em que se baseia essa retórica? Na crença de que os valores do grupo que se sente ameaçado são os valores universais de toda sociedade.
Qualquer semelhança com o discurso agressivo de muitas lideranças evangélicas com relação aos direitos de minorias sexuais não é mera coincidência. Quiçá o som maior seja o da canção dos pássaros e as diferenças, não naturalizadas, possam aprender umas com as outras a reconheceram a "outridade" em si mesmas e alhures.
Não custa nada acreditar, mas deve-se fazê-lo sem perder de vista os riscos envolvidos em qualquer operação do crer.
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