O nexo entre o religioso (em sentido obscuro) e o político (a toda prova)

Existe uma estupidez escondida na forma como os debates sobre religião e política se dão. As pessoas podem ser profundamente religiosas (no sentido obscuro, da intolerância) sendo profundamente políticas (a toda prova). E o receituário é simples. Primeiro: adore seus argumentos (que as vezes são emprestados de outros) a favor ou contra o governo e a oposição (PT, PSDB, governo Dilma, governo Alckmim e o caramba a quatro). Segundo: não pense que pode haver outras formas de refletir sobre pessoas, situações, atos do governo e da oposição, eventos, atuação da grande imprensa e outros aspectos de uma sociedade democrática. Terceiro: não basta adorar seus argumentos, ame-os de tal modo, idolatre-os e faça deles seu ídolo. Quarto: considere que toda crítica aos seus argumentos (ou ao governo, a oposição etc.) é coisa do Diabo ou para ser mais "sofisticado na estupidez", é coisa de uma conspiração de direita ou de esquerda, muito bem urdida, com apoio dos Cavaleiros Templários redivivos, os Iluminatti e de quem você quiser. Quinto: deixe que os mantras dos que cerram fileiras contra ou a favor (de Lula, Dilma, FHC, Aécio, Campos etc...) sejam entoadas em seus ouvidos. Os mantras poderosos exercerão um estranho poder fetichista, impelindo o sujeito a sacrificar e a mandar bala em tudo, inclusive em suas amizades pessoais. Sexto: com isso, as pessoas se eximem de repensar com inteligência (vão todas para o martírio, glorioso, a santa cruzada) e, assim, ausentam-se de colocar em suspenso os argumentos do grupo ou da liderança religiosa e política com as quais identificam-se. Com isso, não exercem autocritica e nem flertam nem com uma mísera "epoché", suspensão do julgamento, tão salutar para o bom e o bem pensar. Ou seja, as pessoas abdicam do papel de autonomia e intelectualidade. Tanto à esquerda, quanto à direita existem pessoas que esforçam-se por serem perfeitamente estúpidas. Contudo, um alerta: infelizmente há pessoas que usam a "epoché", analisam o governo, a oposição e o caramba a quatro, sob outros pontos de vista. Eles não ficam fechados em posições de forma automática e endurecida e não se conformam com pensamentos não criativos. Por fim, também infelizmente, existem pessoas que simplesmente acham todos o mantras e alinhamentos automáticos pró ou contra governo e oposição, coisa muito chata. Cuidado, todas essas pessoas são hereges. Para ser um perfeito estúpido, não faça amizades com eles. São perigosos, no fim das contas. Considere-os sob dois ângulos: ingênuos desinformados ou manipuladores inveterados. Pregue a verdade para eles, mas, caso insistam na teimosia - dizendo que há outros modos criativos de pensar, de refletir, de considerar religião e política, governo e oposição - considere-os irremediavelmente contaminados, "endemoniados", almas boas, mas perdidas para sempre. Queime-as no altar da verdade (a sua e a de seu grupo, óbvio) e se possível, desfaça a amizade no Facebook. O quanto antes.
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