As religiões, as políticas e os nativos: como os antropólogos e cientistas da religião são devorados

    Há muitos modos de perder a razão. E há modos em que você a perde de qualquer jeito, ainda mais estudando estes escorregadios temas: religião e política, e com os temas, todos os "nativos", ou seja, os que a vivem como primeira realidade. Recentemente, ao acompanhar as polêmicas em torno da religião e política no Brasil e em torno do cruel conflito Palestina-Israel, comecei a refletir sobre os dilemas postos diante dos pesquisadores da religião. Double bind, uma instigante ideia de Gregory Bateson, antropólogo norte-americano, permite pensar as aporias nascidas da prática interpretativa inserida no estudo das contemporâneas transformações da política e da religião e também do trabalho de campo do pesquisador junto aos "nativos" dessas duas grandes galáxias (religião e política). Double bind, ou duplo vínculo, é uma situação paradoxal, nascida de injunções conflitantes aderidas a uma determinada posição ou ação. Ou ainda, não importa o que você faça ou diga, não há saída fora de dicotomias (vítima/carrasco; reacionário/revolucionário; direita/esquerda), e ao mesmo tempo, você é instado a optar e a tomar uma posição. Mas, seja qual for a opção ou as hipóteses levantadas por você para repensar os alinhamentos automáticos, inexoravelmente te taxam, sobretaxam, controlam e rotulam. E você perde a razão e a palavra. Em alguns casos, não dialogam mais e te isolam. 
    Há muitos exemplos das armadilhas do duplo vínculo dentro do trabalho etnográfico junto às religiões: se você critica os pentecostais em algum aspecto, te classificam como cristianofóbico; se você fala ou escreve observações interessantes sobre o mesmo movimento religioso, te tornam aliado dos pentecostais e inimigo do Estado laico. Se você critica aspectos do conflito Israel-Palestina, algum elemento do Hamas ou do Estado de Israel, chamando atenção para a imensa e complexa engrenagem que envolve muitas peças e interesses conflitantes, te taxam de "islamofóbico" ou "anti-sionista".
     Se você faz alguma observação crítica ao movimento negro, te tornam um perfeito "racista", mas se você faz uma observação não-crítica, ganha simpatia e confiança, vira "amigo desde criancinha" da causa negra. Se você critica algum aspecto do Governo Federal, vira uma "coxinha de frango ambulante", ressentida e ingrata. Se você observa coisas interessantes feitas pelo Governo Federal, vira "pelego" ou "chapa-branca", um otimista ingênuo, na melhor das hipóteses. 
     Para cada uma dessas posições, a favor ou contra, os "seguidores" da cada categoria (os que te chamam de "islamofóbico" ou "anti-sionista", ou qualquer outro "anti", muitos deles antropólogos, sociólogos, teólogos, cientistas da religião e outros intelectuais, lideranças e adeptos de religiões) tem um carrada de argumentos para provar que você é assim e pronto, não há mais o que conversar. 
    É difícil desfazer o duplo vínculo, mas uma saída é indicada por Gregory Bateson: recusar os termos da equação ou do jogo posto, subverter estas perguntas: de que lado você está, você precisa tomar partido, entre outras. É preciso incluir outras variáveis, do contrário, o ato de tomar partido ou de falar e escrever se transforma em algo como assinar um papel em branco. Ou ainda, o temível sacrifício do intelecto, do qual Max Weber fala num texto soberbo: "A ciência como vocação". E dentre os sacrifícios do intelecto, o pior não é o do "nativo" que defende sua posição, muitas vezes de forma ranheta e ranzinza, seja quais forem as críticas e observações dirigidas a ele ou a algum aspecto de sua realidade. O pior sacrifício do intelecto é aquele realizado por pesquisadores, estudiosos e intelectuais: em nome da ciência, fazer "profecias de cátedra" e tomar posições políticas e religiosas travestidas de análise "científica". Já o duplo vínculo, como armadilha da linguagem, empurra muitos pesquisadores para uma vala comum, da qual muitos grupos militantes religiosos e políticos, seja quais forem, não te tiram, pelo contrário, quanto mais você fala e escreve, mais jogam terra em cima.
     Assim, de repente, o "mundo" ficou tomado por fobias religiosas e políticas: cristianofobia, islamofobia, judeofobia esquerdofobia, direitofobia, misofobia e androfobia. Cresce a "patrulha ideológica": você não pode pesquisar sobre conservadores católicos que logo alguns grupos acadêmicos tem veem como um perfeito defensor do catolicismo reacionário. Ou ainda, basta pesquisar e estudar sobre as igrejas inclusivas ou teologia gay, para ser classificado por alguns como adepto da causa gay ou como defensor da "ditadura gay", como alguns grupos religiosos conservadores rotulam. Às vezes a reação de alguns estudiosos é curiosa: acentuam o rótulo, com ações performativas que, segundo eles, buscariam romper as amarras dessas prisões. O resultado pode ser o contrário, aferrar mais ainda. Da mesma forma o esforço contrário, a desacentuação do rótulo, pode redundar também nas grades das quais se foge. Por isso a ideia de Bateson: duplo vínculo, como uma armadilha da linguagem. 
    Os acadêmicos e cientistas da religião e antropólogos, todos, possuem totens, fonteiras, exclusões, políticas de identidade e, às vezes, de "grupelhos bem articulados", tão sutis ou perversas quanto qualquer grupo religioso com tendências intolerantes. O problema é que muitos não se dão conta desses engrenagens de moer a liberdade de pensamento e dos problemas de duplo vínculo que isso causa. 
     Mover-se entre realidades e linguagens religiosas, operar interpretações e diálogos entre distintos planos e dimensões (para começar, entre a academia e os grupos religiosos) é uma tarefa fundamental à qual o antropólogo da religião ou o cientista da religião é chamado. Mas, a armadilha do double bind fica à espreita do pesquisador, pronta para ser acionada por grupos acadêmicos e religiosos nos jogos de linguagem e poder. E assim, essas armadilhas de duplo vínculo multiplicam as fobias: é fobia pra tudo que é gosto e lado. E o "fóbico", no caso do comentário que faço aqui, é aquele que sô vê, só sente, só crê, só exalta seu lado, adora sua fobia. A fobia é alimentada pela incapacidade de ver outras possibilidades, posições e argumentos. Ou, o que dá no mesmo, apagam-se todas as diferenças em um conceito ou categoria "caolhas", viciadas numa única forma de pensar. Fica-se assim, de olhos bem fechados para as alteridades, outras ideias e hipóteses, e, no fundo, para si mesmo.

0