Religião, política e liderança nas eleições presidenciais: uma chave de leitura weberiana

A paixão encanta, entusiasma. A militância religiosa e política tende a partidarizar a visão e faz perder amplitude e profundidade. Há uma única direção, que pode empobrecer o ato da compreensão. Um pesquisador, um antropólogo, um teólogo, um cientista da religião pode se tornar porta-voz, oculto ou deliberado, do grupo que estuda, do objeto que investiga, da instituição à qual se filia. Nos porta-vozes, a voz da reflexão enrouquece e a visão de mundo do grupo religioso ou do partido político sobe o tom.
Instagram da pastora Ana Valadão.
Atualmente ela apoia Marina Silva (PSB)
Nem todos pensam sobre os riscos dessa aproximação, alguns maiores do que outros: para uma mulher ou homem da instituição, ou que ao grupo adere organicamente, será exigido do mesmo que legitime a versão da verdade e a memória autorizada sob a guarda grupal.
 O jogo de morde e assopra entre Marina Silva (candidata à presidência pelo PSB), de origem evangélica, e o Pastor Silas Malafaia, evidencia essa relação. O líder evangélico reclamou do programa do partido e dias depois foram retiradas as passagens explícitas ao "casamento" homossexual do Programa de Governo da candidata à presidência. Contudo, permaneceu um viés de apoio às reivindicações e direitos da população LGBT. Jogo de negociações, jogos de linguagem e interpretação.
   Nesse sentido, há uma tensão entre o Estado que é laico, e a sociedade que não é. Essas tensões não podem ser resolvidas, são permanentes. Um candidato e um governante caminham entre a sociedade, que professa uma religião, e o Estado Laico, neutro em termos de atuação favorável ou desfavorável às religiões.
   Contudo, o militante e o partidário estão no limite da percepção ampla e compreensiva. São instados a de alguma forma (consciente ou inconscientemente), consagrar a versão da verdade e a memória autorizada sob a guarda daquele grupo. O sociólogo Pierre Bourdieu fala, por exemplo, do poder consacratório dos rituais: consagrar e eleger como natural e ontológica, uma verdade ou realidade arbitrárias.
Por isso, é grande o risco de não perceber, não entender e interpretar bem as diferenças da diferença, a dialética interna que cada grupo e fenômeno religioso e político contêm, ou melhor, que atravessa os grupos e fenômenos, constituindo-os como tais. Em momentos de acirrada disputa, as categorias de acusação surgem de todos os lados: este candidato é compromissado com a verdade, aquele outro com a mentira.
Classificar Marina sumariamente como religiosa e mística, submissa ao poder religioso, pode ser tanto um julgamento moral quanto uma percepção, mas é frequentemente algo que pode limitar uma compreensão mais ampla, reiterar clichês e esconder o rico jogo do real.
No caso das eleições, tanto o sujeito quanto o objeto da vida social - o eleitor e o candidato - são "invenções", relações que se travam dentro das teias da vida e da investigação, indelevelmente unidas. Não são pontos fixos prontos, submetidos a protocolos e procedimentos invariáveis e inflexíveis. Quando os fatos e fenômenos relacionam-se ao religioso, a vertigem aumenta. Ficar com os olhos bem abertos a esses engajamentos e compromissos só funciona no limiar da militância. Ao adentar o solo do compromisso cego, a lealdade à causa torna-se um imperativo. O que levanta a questão: é possível engajar-se politicamente e ter um olhar aberto e reflexivo, mais compreensivo e menos acusador? 
Alguns dizem que não é possível, já que pensar de forma aberta e reflexiva significa submeter os compromissos a uma severa crítica. Ou talvez sim, desde que os compromissos de engajamento sejam “objetificados” (cartas à mesa), escritos e refletidos com severidade e rigor epistemológico. Contudo, tal procedimento exigiria uma coragem incomum, e o risco de, ao final, submeter às próprias crenças a um exame crítico.
Filósofos, como Clement Rosset, são pessimistas: alguém predisposto a crer já é alguém indisposto com as verdades e as realidades que estão espalhadas, muitas delas questionadoras e ácidas, vão de encontro ao que se professa. Mas como entender, nesta eleição, a relação entre religião e política no atual calor destas eleições? Talvez Max Weber indique alguma via para entender o fenômeno Marina Silva. A teoria política dos tipos ideais de dominação e liderança pode trazer alguma luz.
Em termos ligeiros, são três os tipos de liderança e dominação: a tradicional, a burocrático-legal e a carismática. Os tipos ideais são modelos ou quase "caricaturas" do real, e por isso mesmo, ajudam a pensar os processos reais. Não são modelos que se aplicam à realidade, de forma mecânica e direta, mas são provocações para pensar. Não explicam tudo, óbvio, e seriam necessárias outras ideias para ampliar o quadro compreensivo. 
Contudo, o objetivo deste post é partir da teoria política weberiana. Nesse sentido, podem-se pensar as três candidaturas ideais: Marina Silva se aproxima da liderança carismática; Dilma Rousseff e Aécio Neves da liderança burocrático-legal.
Uma liderança carismática pode surgir de dentro dos desvãos das máquinas burocrático-legais e tradicionais, cujo funcionamento é imperfeito no dia a dia. Como não há tipo puro de dominação e de liderança na realidade, os desvãos dessas realidades permitem o jogo de intercâmbios que atravessam a história. 
A liderança carismática é da ordem do extraordinário, é discricionária (em oposição aos mecanismos burocrático-legais e tradicionais de decisão) e surge por fora ou na liminaridade das máquinas burocráticas e tradicionais. Sua força é intensa e reside na permissão dada aos indivíduos e coletividades, de vislumbrar mecanismos de imaginação coletivos e individuais desafogados da rotina, livres e 'extáticos', vislumbres de novas possibilidades.
A comunidade e os diversos grupos sociais, acreditam nos poderes extra-cotidianos do líder carismático e o legitimam. Dessa forma, a rotina burocrática e tradicional cede espaço à possibilidade de novos mecanismos de imaginação do real, mesmo contendo ideias antigas. No caso de Marina, ideias do liberalismo econômico clássico (ironicamente, num partido socialista). No entanto, como é uma dominação/liderança carismática, a mesma necessitará compor com os elementos das outras dominações: a burocrático-legal e a tradicional. 
Mas, para aqueles que pensam que a relação entre religião e política é uma coisa automática e mecânica é preciso dizer, não é. Há filtros entre e uma instância e outra, há mediações e mediadores entre as crenças religiosas e as ações políticas. O 'continente' dos evangélicos possui semelhanças, mas o mesmo também é diversificado, com muitos territórios, caminhos, lideranças, tipos e combinações singulares e específicas.
   Nesse sentido, há uma tensão entre o Estado que é laico, e a sociedade que não é. Essas tensões não podem ser resolvidas, são permanentes. Um candidato e um governante caminham entre a sociedade, que professa uma religião, e o Estado Laico, neutro em termos de atuação favorável ou desfavorável às religiões.
   Contudo, o militante e o partidário estão no limite da percepção ampla e compreensiva. São instados a de alguma forma (consciente ou inconscientemente), consagrar a versão da verdade e a memória autorizada sob a guarda daquele grupo. O sociólogo Pierre Bourdieu fala, por exemplo, do poder consacratório dos rituais: consagrar e eleger como natural e ontológica, uma verdade ou realidade arbitrárias.
Mas como entender, nesta eleição, a relação entre religião e política no atual calor destas eleições? Talvez Max Weber indique alguma via para entender o fenômeno Marina Silva. A teoria política dos tipos ideais de dominação e liderança pode trazer alguma luz.
O desejo de que o real-cotidiano seja suspenso, dando lugar a uma nova ordem (melhor) são fortes e o líder vai ao ápice. O desarranjo na rotina é grande, e pode redundar em direções e composições diversas. Aqui é preciso notar as composições de classe e segmento social, os jovens urbanos, as classes trabalhadoras, os grupos empresariais e financeiros e seus interesses divergentes.
Ainda pensando Marina Silva à sombra da teoria weberiana do carisma, a própria história da seringueira pobre fornece elementos que alimentam a aura mitológica de: sobreviveu depois de acometida por doenças mortais, lutou contra enormes dificuldades e alcançou elevados postos na configuração partidário-estatal (Senadora e Ministra de Estado). Com essa história e as habilidades de oratória, torna crível aos olhos de indivíduos e grupos, o carisma, pessoal e intransferível, da persona, agora revestida de legitimidade.
Por outro lado, quando lideranças burocrático-legais e tradicionais falam, não falam aos desejos e imaginações, mas falam a racionalidade e a tradição, ou seja, elas levam em conta um eleitor ideal, marcado por cálculos racionais e hábitos. Quando Dilma Rousseff e Aécio Neves falam, soam como rotineiros, não abrem espaço a imaginação utópica. Por outro lado, ataques frontais à liderança carismática podem servir para reforçar a crença na missão do líder. Talvez por um “mecanismo” que Clemente Rossset identificou na temática da crença. Seu livro, Princípio da Crueldade, explica: toda crítica frontal, mesmo que recheada de dados empíricos contrários, não desfaz a crença professada, mas pode reforçá-la.
No entanto, a questão é: quais as reflexões sobre Marina Silva podem ser realizadas que não sejam clichês e lugares-comuns, simples acusações, mas também não deixem de entender as intrincadas conexões entre o religioso e o político em sua história como candidata e na história do Brasil?
A diferença entre mito e história é ambígua, os limites entre “fato histórico”, “tradição”, “lenda”, “contos de fada” são imprecisos e artificiais. Tanto a história quanto os mitos derivam de narrativas sobre o passado, mas a questão não é a veracidade, e sim sua peculiaridade: a implicação moral. O passado é um grande patrimônio simbólico em Marina Silva, e por isso ela é admirada por tantas pessoas. Por outro lado, o passado de Lula e de Dilma Rousseff também confere certo carisma, uma autoridade com força de carisma.
Assim, quando se analisa o contexto político-religioso destas eleições, a religião é um elemento importante, mas precisa ser conjugado e entendido dentro de outros elementos. Muito do cristianismo professado por 22% de brasileiros que professam o cristianismo evangélico (de cunho pentecostal e neopentecostal), carrega tintas messiânico-salvacionistas, enfatizando o milagre, o sobrenatural que age na ordem natural das coisas (O catolicismo também está marcado por isso). Essas tintas não são apagadas quando novas mídias e redes sociais dinamizam a sociedade, ao contrário, novas tonalidades e combinações de cores emergem. Para ter em mente isso, basta acompanhar como agem e pensam algumas lideranças evangélicas como Ana Paula Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha. Com uma gigantesca sede em Belo Horizonte, milhares se seguidores e um uso exímio das mídias e redes sociais, é um exemplo de como religião, mídia e política estão imbricados no Brasil: o velho e novo formam estranhos híbridos. O eco dos milenarismos e dos usos religiosos da política e usos políticos da religião repercutem com força nas imagens e formas de pensar dessa liderança evangélica. Exemplo disso é o Instagram Oficial da líder evangélica: um foto pedindo apoio ao Novo Reino de Marina e outra, mais antiga, pedindo orações para a presidente Dilma.
Por isso, não é possível esquecer a longa história do milenarismo, do Reino Novo que se anuncia iminente (Dom Sebastião que voltará, a ordem velha que precisa ser posta abaixo): Canudos, com Antônio Conselheiro e Contestado, com o(s) Monge(s) José Maria. Esse ethos reverbera nos interiores, nos ambientes rurais, nos sertões, mas algo dele permaneceu nas periferias urbanas, habitadas por populações, senão ágrafas, pouco escolarizadas ou com escolaridade baixa e fragmentária. Há, renitente nos messianismo, um sintoma social: a desconjunção e o descompasso entre os ritmos de desenvolvimento social, econômico e cultural entre as classes sociais, entre as elites e as populações, em especial, as periféricas e subalternas.
Por cima, nas classes empresariais e financeiras, reverberam outros interesses e acordos. São classes mais pragmáticas, movidas por outras formas de entender as realidades eleitorais e políticas, perpassadas por cálculos políticos e econômicos, racionais. Mas não convém endurecer essas caracterizações, mas compreender que ambas as características (racionais, da ordem do cotidiano pragmático e não racionais, da ordem do sonho, do mito, da utopia) extravasam classes e segmentos: os pobres também fazem seus cálculos políticos e econômicos, assim como os ricos constroem suas narrativas míticas.
Mas, nas oralidades, em meio aos ambientes populares e ágrafos, o mito se reveste de outras dinâmicas, mais vivenciais, vívidas e reflexivo-performáticas. Faço um parêntese: muito pouco se estuda sobre a continuidade do ethos milenarista-messiânico nas religiões brasileiras, em especial, se, e como, essas ideias continuam, de alguma forma, entre os evangélicos. De fato, nenhuma religião cresce sobre um solo puro, absolutamente original, mas deita suas raízes sobre um solo anteriormente cheio de outras matrizes e nutrientes. Com esses elementos pré-existentes constrói sua permanência na ordem social e sua moralidade.
A dominação burocrático-legal e tradicional (em sua forma patrimonialista, que Raymundo Faoro apontou como a aguda questão brasileira) impõe limites, pela força de suas lógicas internas, a imaginação de experiências extáticas, orgiásticas e extra-cotidianas: encerra a rotina em um domo de ferro, cria endurecimentos em torno de hábitos, mecanismos de decisão, gestão e organização e enfatiza outros mecanismos de seleção, e, portanto, exclusão de formação de líderes e de distribuição de poderes políticos e sociais.
Essas dominações/lideranças tradicionais e burocrático-legais, em meio ao presidencialismo de coalizão e em meio às tensões inerentes ao processo histórico brasileiro de negociação, acomodação, ascensão e preservação de status quo (interesses conflitantes) dos diferentes segmentos e classes sociais, mostram insuficiência na explosiva tarefa de desenvolvimento sociocultural e econômico.
É preciso considerar as novas configurações midiático-cibernéticas e as da sociedade do espetáculo que, longe de afastarem a irrupção de lideranças carismáticas, abrem brechas para que as mesmas surjam. As mídias propagam o real como a versão do real, mais real do que os processos reais. Por exemplo, circulou um foto de Marina costurando seu vestido: a mensagem da simplicidade e singeleza surge com força, é desdobrada nas redes sociais, comenta-se muito, contra e a favor, ampliando e reforçando a aura em torno do líder.
As lideranças carismáticas surgem anunciando o “novo”, entretanto, crescem sob o solo em que havia (e há) antigas raízes, hábitos, acordos e dinâmicas. Diante de uma liderança carismática, a imaginação coletiva e individual aposta crédito como forma de exorcizar a ordem da rotina, pesada, sufocante, em sua ingrata tarefa de gerenciar os conflitos, desejos e tensões das classes e segmentos sociais, culturais e religiosos.
Ana Valadão no Instagram.
Há poucos meses, a pastora apoiava Dilma Rousseff (PT)
Por força de lógica interna, a liderança carismática é extraordinária, acrescentando um quê de interrogatividade e imprevisibilidade. Mas, como não existem tipos puros na vida real, a liderança de Marina Silva não é puramente carismática, há outros elementos.
Primeiro, está circundada por velhos e antigos grupos econômicos e religiosos (vide o apoio de igrejas e pastores evangélicos) cujas ideias, na boca de Marina Silva, soam como novidade. Ao contrário das velhas ideias da ordem política atual, que soam como incapazes de fazer viver a imaginação de um país e seus rumos sociais e econômicos.
Dilma Rousseff, indicação de um carismático líder (Lula) consegue produzir um “efeito de realidade”, mas o mesmo, às vezes não faz viver a imaginação e a plausibilidade de uma ordem social além da rotina para muitos segmentos sociais, em especial, os jovens e urbanos.
Em meio ao solo do desgastado presidencialismo de coalizão e das velhas oligarquias e grupos econômicos, Marina Silva surge como frescor de vento novo, novidade. Alguns vão dizer que isso é falso. Num mundo em rede, urbano, móvel, fragmentário, sob o império do espetáculo, do consumo e da performance, o que importa é o efeito de real: o que parece real é “real”, pelo menos para milhões de eleitores com celulares e tablets na mão, circulando em alta velocidade pelas redes sociais, tomando aqui e ali, informações fragmentárias e construindo com isso, um mosaico do real.Mas, toda dominação carismática enfrenta um dilema: a sucessão e a boa continuidade da dominação. Os mecanismos de transmissão de carisma não são mecânicos e lineares, embora alguns analistas falem de "carisma de cargo", transmitido via consagração. 
A onda levantada pela credibilidade do líder carismático pode provocar dissensões, já que a tendência do carisma é dissolver rotinas estabelecidas, mas, para repô-las em torno de outras pessoas e grupos. Vide a saída do secretário-geral do PSB, Carlos Siqueira, em aberta briga com Marina Silva, retratada pela grande imprensa. Mas, em algum momento essa onda de propagação se acomodará, ou, em linguagem weberiana, esse carisma sofrerá uma imensa transformação, rotinizando-se e ajustando-se aos ordenamentos sociais existentes.
Outros tons de complexidade aparecem: um enorme contingente mal- alfabetizado, com pouca leitura, lançado no mundo digital por meio de plataformas que produzem um tipo de enquadramento do real, das informações e das imagens mediado por forças performáticas e especulares.
O acesso desigual da população a educação e a saúde de qualidades e ao aparelho judiciário, as políticas públicas em suas aplicações que não são uniformes, os grupos de pressão e negociação encarquilhados no Estado (grupos de todos os matizes, inclusive religiosos, que cobram pelo apoio) e uma série de outras questões, favorecem a emergência de tensões, de fantasias do real e a emergência do carisma como nostalgia da unidade, da superação dos fragmentos rumo a uma totalidade maior e mais forte.
Não à toa, um dos motes do discurso de Marina Silva é "Vamos unir o Brasil". A sensação de vertigem e de utopia é forte: a totalidade do corpo do líder carismático é tida como transcendental. Marina Silva se torna mil imagens reverberadas que se retroalimentam.
Muitos acreditam que enfim, o domo de ferro da rotina, da mesmice, da lentidão das mobilidades sociais e econômicas pode ser rompido e que as mudanças, “verdadeiras”, serão implantadas. Diante das novas promessas, todas as construções políticas, sociais e econômicas anteriores, mesmo que bem-sucedidas ou parcialmente bem-sucedidas, tornam-se insuficiente como elementos de caução e autoridade aos governantes.
O líder carismático a partir de sua "boa vontade" anuncia que as conquistas anteriores serão preservadas em sua governança. Com isso, pretende ser o porta-voz geral e fiel depositário de todas as esperanças. Mas, logo as grades do domo de ferro serão reposicionadas, as máquinas partidárias e estatais, para funcionarem, cobrarão acordos e arranjos. Marina Silva participou do PT e do seu governo e sabe muito bem como funcionam as negociações políticas. Ela sabe que não pode misturar crenças pessoais com ordenamentos políticos. 
É justamente aí que se instala outra tensão: o líder carismático, pressiona a máquina política (o Congresso, por exemplo) e esta, responde, emperrando, subtraindo eficiência, entre outras ações comuns. O jogo torna-se intenso, pois o líder carismático segue suas intuições tanto quanto os cálculos políticos de seu grupo de apoiadores. No caso, Marina Silva deu mostras de que sua crença religiosa pessoal está operante: diante do fato que a alçou como cabeça de chapa, o terrível acidente aéreo com Eduardo Campos, disse que a Providência Divina a impediu de voar naquele fatídico dia. Nesse sentido, acusações baseadas no fato de a candidata professar alguma crença são peças de desconstrução e acusação, ampliadas pelo uso das redes sociais e das mídias.
Outro ponto importante na liderança carismática:a tendência ao apelo pela unidade, pela totalidade, por mecanismos de produção de amplos e fortes consensos, com conotações políticas. Por exemplo, o uso de plebiscitos para temas morais ou que mobilizem a percepção relativa a direitos de minorias. Marina Silva tinha mencionado, nas eleições de 2010, a ideia de realizar plebiscitos sobre questões polêmicas como aborto e "casamento homossexual". A questão é que o plebiscito não é uma ferramenta útil nesses casos, ao contrário. Tal ferramenta, no contexto de uma dominação carismática, significa uma ruptura com a noção essencial do Estado de Direito e a democracia representativo-liberal com ênfase em uma social democracia, pois o que caracteriza uma democracia não é a vontade da maioria, a vontade soberana da maioria, somente, mas, sobretudo, o respeito e a promoção dos direitos e dignidade das minorias étnicas, sexuais entre outras.
É imprevisível dizer de antemão em que direção a balança política do líder penderá em busca de apoio e legitimidade para o que considera como missão. No caso, governar o Brasil, dissolver a dicotomia política anterior e conduzir os brasileiros à prosperidade prometida. Mas, a balança econômica da atual candidatura já tem uma direção, a liberal, quase clássica. No caso do Brasil, as políticas econômicas alternam-se entre uma direção desenvolvimentista-trabalhista, tendo o Estado como indutor do crescimento e desenvolvimento econômico, e a direção liberal-fiscalista-monetarista, com o Estado retirando-se do papel de indutor de crescimento econômico, deixando as tarefas de gerenciamento e crescimento, a outros organismos civis e sociais e a iniciativa privada.
Por outro lado, o líder carismático em sua ascensão precisa contar com o apoio de alguns elementos da máquina antiga, em geral, grupos que foram afastados ou que se afastaram do Governo Central, ocupado por uma coalizão de poder, no caso o PT, circundado pelo PMDB. Marina Silva aproximou-se de oligarquias, velhos políticos e empresários, grupos políticos descontentes e segue adiante.
Faz a figura de um líder carismático weberiano: em seu discurso pretende governar contornando as resistências das máquinas partidárias e mecanismos políticos, reforçando a versão de que pode governar com as pessoas de “boa-vontade” numa relação mais direta, menos submetida aos controles burocrático-legais e tradicionais, sob os quais lança a suspeita de serem insuficientes e deficitários.
Por isso, é de se pensar: porque milhões de pessoas acreditam na ideia e na imagem de Marina Silva? Seria a raiva e o descontentamento com a polarização PT e PSDB ao longo desses 30 anos (1994-2014, do Plano Real ao Bolsa Família)? Porque esse discurso e essa performance  "marinista" recebem crédito a ponto de se tornar uma onda de intenção de votos que poderá levar Marina Silva a disputar o segundo turno com a presidente Dilma Rousseff? E aqui, não levo em conta os cenários e variações regionais e sociais, sempre singulares e específicos. Não valem aqui, para explicar, as velhas ideias de alienação, conspiração, manipulação. Elas estão caducas.
Por outro lado, não há marqueteiro e máquina partidária, ou de governo, que dê conta de segurar a onda que se ergue em torno da liderança carismática. A paixão impulsiona o líder carismático com o voto de crédito que recebe das pessoas e dos eleitores, espalhados por segmentos e classes. Alguns analistas notam que a média de intenção de voto em Marina Silva é mais homogênea, levando-se em conta variáveis como região, cidade/campo, idade, gênero, e outros, embora hajam piques para mais ou para menos em algumas variáveis: entre os evangélicos ela tem percentual de voto maior do que Dilma Rousseff.
Diante desse cenário religioso e político, e para vivermos em sociedade, diante de seus processos de decisão (como as eleições presidenciais) temos que classificar em hierarquias os parentes e vizinhos; todos somos pessoas sociais; todos nós vestimos “máscaras”. Como todas as sociedades são apanhadas na história, cada de um nós cria, para nossos propósitos, um sistema imaginário de ordem.
Por isso, no caso das eleições, o passado tende a ser idealizado: o líder carismático é porta-voz de um passado de lutas, tido como vencedor, que se projeta como futuro promissor.
Talvez a onda se quebre antes de chegar à praia. Talvez não, arrastando a antiga dicotomia PT-PSDB e provocando novos reposicionamentos. Talvez os eleitores desejem colocar de "molho" as duas formas políticas dicotômicas com que o Brasil tem sido governado nos últimos 30 anos (por seus problemas internos) e, com isso, alertar os atuais detentores que há insatisfação e desejo de mudança mais acelerada. Ou talvez Marina e o PSB tomem o lugar do PSDB na polarização política e o discurso da terceira via e da união se desfaça.
A vertigem é pulsional, fluxo puro e, portanto, representa uma desestabilização dos atuais arranjos. É possível esperar que o desarranjo causado seja a brecha por onde novas ideias, ações e possibilidades ganhem o mundo e mudem o real. Todavia, não há nenhuma garantia de que novas ideias e ações brotem das fissuras de ordem carismática.
Ao fim, uma hora ou outra, os indivíduos e as coletividades percebem que não é possível "suspender" o real-cotidiano permanentemente e que, inexorável, ocorrem reajustes nos cálculos, recalibrando mitologias e readequando posturas, arranjos políticos e religiosos. 
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