Êxodo e Dez Mandamentos: cinema e religião


Ao final de 2014, um famoso cineasta, Ridley Scott, realizou outra narrativa fílmica dos grandes relatos bíblicos de Êxodo. Antes, em 1956, Cecil Blount DeMille ganhou vários várias estatuetas do Oscar com o filme Os Dez Mandamentos. Há diferenças profundas e interessantes entre as narrativas, mas falarei sobre alguns pontos que sempre me inquietaram. Fui criado numa família católica tradicional, instada a aprender antigos costumes e a ler a Bíblia. Li todos os livros que a compõem, algumas vezes. As passagens criavam interrogações longas e algumas inquietantes. Esforçava-me para entender, mas esbarrava em uma esfinge. Diante de algumas perguntas, alguns me diziam: é o “mistério de Deus”. Adianto uma das inquietações: por que Deus decreta a morte de todos os primogênitos do Egito (homens e todos os animais), executados pelo Anjo Exterminador? Um ato extremamente cruel. 
Lendo uma crítica do filme de Ridley Scott, avivou-me a memória essas interrogações e a ideia de escrever um texto, comparando à grossas linhas, dois filmes sobre a mesma temática: a fuga do Egito, a libertação da escravidão cruel, a inauguração da vontade normativa de Deus. Essa é uma matriz simbólica e mítica fundamental da Cultura Ocidental e de duas grandes famílias religiosas: o judaísmo e o cristianismo. Posso dizer que é um relato épico visceral no imaginário do Ocidente. Inspirou muitas reflexões e releituras, inclusive as do cristianismo da libertação, nas Comunidades Eclesiais de Base. Mas, enfatizo algumas cenas, empreendo alguns paralelos entre os dois filmes e, por fim, lanço uma reflexão.





Em 1956, o diretor Cecil Blount DeMille lançou um filme épico: Os Dez Mandamentos. O filme narra a saga épica do Êxodo, a libertação do povo escolhido, os hebreus, por YAHWEH. Moisés, salvo das águas, criado pela família real do Faraó, lidera a saída dos escravos e a constituição de um povo sob um novo signo. Os efeitos especiais eram considerados os melhores para a época. Começo lembrando o significado que a tradição dá ao nome de Moisés: salvo das águas, renascido. E, de fato, em ambos os filmes, Moisés renasce e muda diversas vezes, por dentro e em sua função e postura.
Há cenas emblemáticas, que provocam reflexão. Por exemplo, a sarça ardente. Num filme e noutro, a força da releitura das mitologias de origem das famílias religiosas saltam aos olhos. Em Os Dez Mandamentos, Deus e sua voz são tonitruantes, poderosos, descem do céu como trovão. O monte Sinai: a altura como símbolo, a montanha rochosa como signo do encontro com a escritura maior, definitiva, absoluta: as tábuas da lei, com os mandamentos, são gravadas por intensos raios em pedra, diante de um Moisés estupefato. 
YAHWEH permanece insondável, abstrato, não aparece como pessoa, mas como fenômeno. Deus é o Sagrado que se apresenta em esplendor e Moisés, que a princípio foge do chamado, e agora, dócil, entrega-se a missão a ele destinada: ir ao Faraó, proclamar a vontade de Deus. E se o grande Senhor do Nilo não ouvir a Voz Divina, o filho adotivo dos egípcios será a mão de ferro "javítica", dobrará a vontade de Ramsés e conduzirá o Povo Escolhido à terra que “jorra leite e mel”. 
Scott mostra Deus como menino exigente, com uma birra cruel, e ao final do filme, um detalhe importante no paralelo. Na narrativa fílmica de Cecil B. DeMille, Moisés, depois das muitas rebeliões, sobe ao Monte para ver a chegada do Povo Escolhido à Terra Prometida, velho e sereno. Não se sabe ao certo o porquê dessa decisão “iavítica” de impedir a entrada do seu maior representante no Antigo Testamento.
Tomo o título dos dois filmes em português. Há uma notável diferença. Os Dez Mandamentos e Êxodo: Deuses e Reis. O primeiro título enfatiza o fundamento moral e legal, são dez mandamentos: mandar, proibir. Quem manda? Quem proíbe e quem fiscaliza o cumprimento das regras? A busca do fundamento da liberdade, contrastando com a escravidão no e do Egito. Um paradoxo: na raiz da liberdade do Povo Escolhido, por intermédio de um pacto, o fundamento é a obediência ao Um, ao Único. No outro título, um paralelo: Os Deuses do Egito contra o Deus dos Hebreus, um rei (Faraó) ao lado de outro (Moisés), ou somado (a partícula “e”), uma luta titânica.
Na narrativa de Ridley Scott, Moisés, é um velho que ainda erra pelo deserto, mas à sua direita (e não à esquerda, a esquerda é a mão extermínio, da sombra, do sinistro), e por um breve momento, Deus aparece e continua menino. Isso remete não apenas ao contraste entre uma instituição eterna diante do theatrum et temporis humano, mas o mito do Puer Aeternus, segundo Carl Jung, psicanalista suíço.
Deus, como menino voluntarioso, é uma bela interpretação. Quando Moisés sobre ao monte do Deus da montanha, em busca de três ovelhas, estava chovendo torrencialmente e houve um deslizamento de pedra e lama. Pedras acertam a cabeça e a perna de Moisés. Soterrado na lama, apenas com a cabeça para fora, o filho adotivo da irmã do Faraó olha para a esquerda e vê uma moita, sarça, pegando fogo, azulado e logo após, um menino (Deus), a conversar. Ambos perguntam sobre a identidade do outro e ao final, o menino diz simplesmente, Eu sou. Na narrativa bíblica, o nome de Deus, impronunciável, Eu sou Aquele que Sou. Perguntado, Moisés responde que é um pastor e o Menino-Deus-Javé responde que pensava que ele seria um general. Moisés pergunta para que um general. Ouve a resposta: para lutar. E o Javé-Menino ouve a tréplica do seu futuro mensageiro: contra quem, por quem. E o Menino-javé diz: pelo povo hebreu que há 400 anos é escravizando de forma impiedosa, o povo do qual Moisés é filho de sangue. O Menino-Deus aparece mais vezes durante o filme de Ridley Scott, umas três vezes, sempre com Moisés mantendo uma viva discordância, inclusive das ordens. Chama atenção a cena em que, depois de exilado, casado com uma beduína e de retorno ao Egito, Moisés coloca-se para executar a vontade divina, organizando um guerrilha contra o Faraó, uma estratégia racional. Fora da cidade, à noite, em lugar árido, depois que os hebreus guerrilheiros adormecem, Moisés e o Menino-Deus se altercam. Este diz que do jeito que está vai demorar muito para libertar o povo hebreu, e mostra que agirá para dobrar aquele que se diz Filho Divindades. 
Segundo Maria Lucia Homem, “a expressão latina puer aeternus remete à posição daquele que busca permanecer eternamente como criança ou jovem, recusando-se a aceitar o desenrolar inevitável da vida que, se levada às suas últimas consequências, se encaminharia na direção de uma vivência relativamente autônoma até seu fechamento deslocado para a posição do senex, o velho”. (Disponível em: http://www.faap.br/revista_faap/revista_facom/facom_21/maria.pdf). 

Na primeira narrativa fílmica, Moisés, embora resista, não discute abertamente com Deus, ao contrário da segunda narrativa e em especial quando é ordenada a matança dos primogênitos. Moisés segura um cajado de pastor. No filme de Ridley Scott, Moisés segura uma espada e uma flecha, é um general, e discute com um Menino que ordena a morte de milhares de crianças. No filme de Cecil B. DeMille a ira sagrada veio na sequencia dos decretos insondáveis. Em ambos os filmes o decreto de morte tem dois pontos de consideração. Primeiro, o contexto da cruel reação do avô de Ramsés a uma profecia que falava do nascimento de um salvador: o édito de morte de todos primogênito dos escravos hebreus. Na narrativa bíblica sobre Jesus, isso volta à baila novamente no decreto de Herodes. Segundo, o decreto é cumprido de forma enviesada. No filme de Cecil B. DeMille, a última praga não é pronunciada claramente. A esposa do faraó, Nefertiti, que amava e seguiu amando Moisés até o fim, ouve o decreto real e corre para salvar sua esposa e seu filho primogênito (Gérson): cansado das pragas, com mão de ferro, o Faraó desfecharia um golpe amargo, a morte de todo primogênito hebreu. Quando Nefertiti diz, orgulhosa por ter salvo a família de Moisés, este cobre o rosto e exclama com pesar: da boca do Filho de Faraó saiu a última e mais terrível praga. Uma observação histórica é necessária, quando se fala em Nefertiti, cujo marido é Amenhotep IV, conhecido como Akhenaton, que substituiu o culto politeísta pelo culto a um Deus somente (monoteísmo), Aton, o Rei-Sol. Na narrativa fílmica de Scott, esse enviesamento é mais discreto, pois Moisés discorda dessa vontade divina. A sequencia é similar: o Faraó desafia o Menino-Deus com o édito sobre os meninos-primeiros. Ramsés ronda o palácio em meio a praga da escuridão e sente a presença de Moisés e o indaga. O lugar-tenente do Menino-Javé afirma que há uma coisa maior do que tudo e que o prazo para libertação seria até opôr-do-sol do dia seguinte, caso contrário, os primogênitos do Egito seriam mortos. Um capricho de um moleque divino, uma ordem enigmática, um decreto numinoso? Tanto num quanto noutro filmes os paradoxos ficam, ou à espreita ou, ao contrário, saltando aos olhos. Em Os Dez Mandamentos, a voz do narrador é pausada e solene e expressa com perfeição: pela destra (mão direita), Javé golpeia o Faraó, para quebrar-lhe a resistência e libertar os escravos, mas pela sinistra (mão esquerda), endurecia o coração do filho de Ramsés. A cena se passa depois da morte do primogênito do Faraó que, desolado, depõe o filho nos braços do Senhor da Morte Egípcio e clama por sua vida. Aquela que amava o Moisés, irmão adotivo de Ramsés e casado com este, clama vingança, pedindo a espada encharcada com sangue do Escolhido. Nessas breves linhas, chamo atenção para um personagem e uma cena d'Os Dez Mandamentos: Dathan, vivido pelo ator Edward G. Robinson. O personagem é hebreu, todavia exerce a função de capataz dos egípcios e traz a chibata para os seu irmãos em favor do opressor. Quando da última praga, o extermínio dos primogênitos, os pórticos de sua casa (sem que o saiba) são assinalados com o sangue de um cordeiro. Esse sinal faz com que os egípcios retirem dele a casa, as riquezas e o expulsem. O sinal de sangue distinguia as casas dos escravos hebreus. Aliás, cabe um reparo: a necessidade de um sinal de distinção para que o Anjo da Morte (os anjos são seres criados, com habilidades e funções dadas por Deus) ferisse de morte apenas as crianças egípcias que nada tinham com a luta épica entre Deus e Deuses. Aos adeptos da tese fundamentalista da inerrância e da literalidade bíblicas, comum em largas faixas de igrejas evangélicas, essa narrativa tem ares ainda mais sinistros, só não percebidos pelo ocultamento seletivo dos paradoxos.A sequencia de cenas do filme de Cecil B. DeMille, por sinal bem longa, começa com a subida de Moisés ao Monte Sinai para falar com Javé e receber dele os mandamentos. Datahn já tinha elevado a voz contra Moisés em diversas passagens quando havia a ameaça de não cumprimento das promessas divinas. Moisés já havia subido há muito tempo (40 dias, um número simbólico) e a impaciência rondava o povo de Deus acampado ao pé da montanha. Dathan expõe hipóteses plausíveis: como saber se Moisés voltará vivo e se é verdade que ele fala com Deus. Nesse ínterim assinalo que nos dois filmes apenas Moisés fala com Deus, mantendo uma relação pessoal, íntima, real: os demais têm de se fiar na credibilidade do portador ou enviado e isso é confirmado pelos sinais e prodígios divinos. No filme Êxodo: Deuses e Reis, Moisés aparece algumas vezes conversando com o Menino-Deus e é flagrado por Josué que, ao espreitar escondido, enxerga apenas Moisés falando, e ninguém mais. Um detalhe muito interessante do filme, tornando tênue a fronteira entre experiência mística e outros estados de consciência que, se não chegam a ser loucura, são estranhos, foro do ordinário. Essa cena lembra a conversa com o amigo imaginário, comum entre crianças, que se conversam e vêem outra criança ao seu lado, embora os adultos afirmem não vê-la.No filme Os Dez Mandamentos, a cada mensagem e ordem expedidas, será necessária uma confirmação por sinais e prodígios, mas mesmo assim, a credibilidade é precária, porque a cada vez, ergue-se a dúvida. Dathan conclama a todos a retornarem ao Egito. Uma voz vinda do povo questiona, mas eles nos matarão e o antigo capataz redargui: não se erguemos um ídolo de ouro e voltarmos em procissão com os costumes pagãos. E assim, Aarão, a voz de Moisés, é instado a cinzelar a imagem do Bezerro, feito do ouro derretido que veio com o êxodo do Egito. Com o Bezerro, infância do Touro - poderoso símbolo – traço um paralelo: a causa da quase perdição dos hebreus é um infante antropomórfico (Os Dez Mandamentos), assim como a causa da salvação é um infante hierofânico (Êxodo: Deuses e Reis). Com isso, o Bezerro é posto no pedestal e a cena é de orgias, de beberagens e de um possível sacrifício humano, sugerido por Dathan. Lá em cima, no Monte, Moisés via com temor e tremor, Javé gravar a fogo e raios, os mandamentos. Quando as Tábuas da Lei estão prontas, a Voz de Deus diz a Moisés: Desça rápido, porque o teu povo se perdeu. Chamo atenção para o uso do pronome teu, isto é, não mais meu. Moisés desce a montanha, vê o povo em procissão em torno do Touro Infante, se enfurece e trava um duro diálogo com Dathan. No momento final do diálogo, Moisés desafia, quem está do lado do Deus Verdadeiro fique deste lado, e os que se rebelam, junto ao Bezerro de Ouro. Datahn e alguns ficam e o mesmo faz uma grande pergunta: como crer que o que trazes é o verdadeiro e único mandamento divino - a verdade que devemos seguir - se apenas você ouve a Voz de Deus? Mudando um pouco: como acreditar que essas tábuas foram cunhadas realmente por Deus e não por você? Diante dessa questão, que no fundo expõe a fratura mais importante sobre as bases legítimas de uma lei e uma ordem, social, moral e religiosa, Moisés, como lugar-tenente de Javé, não responde: raios, trovões e buracos surgem, matam e tragam para as trevas os infiéis, os que duvidavam do verdadeiro Deus. Não fiquem alegres os que não se afinam com monoteísmo, pois é só inverter o singular pelo plural, deus por deuses, que a situação será similar, embora alguém possa retrucar: tudo bem, mas são deuses, portanto, não uma única vontade.
Há, aqui, uma grande diferença entre os filmes: na narrativa fílmica de Cecil B. DeMille, Deus é voz, trovão, fenômenos hierofânicos, solene e poderoso. No filme de Ridley Scot, Deus é menino, mão e corpo presentes. Assim, a cena da inauguração da lei no Êxodo: Deuses e Reis é deveras interessante: numa caverna montanhosa, Moisés esculpe na pedra, as leis, enquanto conversa com o Menino-Javé. Eles precisam de leis, é o tom da conversa. Num breve relance, ambos olham o acampamento dos hebreus e lá embaixo veem o que parece ser um ídolo, de quatro patas, um provável Touro, fogueiras e danças. Diante disso, o Menino-Deus meneia a cabeça e Moisés continua a esculpir as leis na tábua para que seja um eterno monumento. As perguntas que ambos os filmes suscitam rugem como uma esfinge: decifra-me ou te devoro.
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