Tradições, destradições e retradições: monoteístas, gays e capitalismo

Gravura medieval - Demônios encorajando
a sodomia ou homossexualismo
1215 - 
Bible moralisée
     Ao longo dos anos, volta e meia os meios de comunicação e os programas de televisão e as redes sociais tem noticiado a emergência de minorias de gênero e sexuais: mulheres, negros e homossexuais, no Brasil, na América e na Europa. A emergência dessas minorias na esfera pública em consonância (e dissonância) com movimentos feministas, marchas e paradas (LGBTTI), teologia queer e teologia gay (cristianismo), propagandas/comerciais e novelas com personagens gays e lésbicos (complexos e não-simplistas), acentuou generosas aberturas da teologia e da prática religiosa em três grandes religiões irmãs: cristã, judaica e islâmica, mas também movimentações reacionárias e conservadoras (família padrão, dia do orgulho heterossexual etc.). Como ficam as grandes tradições religiosas (Islamismo, Cristianismo e Judaísmo) em tempos hipermodernos, diante de novas leituras sobre a sexualidade-gênero, heterodoxas e divergentes, embora minoritárias? Como ficam os monoteístas em uma sociedade de consumo e espetáculo que, para funcionar, faz proliferar as imagens, os mercados, o fetichismo da mercadoria? 
     Essas perguntas me ocorreram ao recordar a parada gay em São Paulo e três reportagens publicadas pela grande imprensa que colocam em pauta releituras minoritárias de gênero nas três grandes religiões monoteístas da história humana: cristã, islâmica e judaica. Nessas reportagens, duas no Jornal O Globo e uma no El País (sessão brasileira), fiéis cristãos, católicos e judeus assumem a homossexualidade e colocam em marcha uma nova semântica que desnaturaliza as antigas associações que ligavam (de forma, aparentemente, indissolúvel) o ser-homem (o vir-a-ser ou devir-homem) ao complexo masculinidade-heterossexualidade-virilidade-paternidade e propõem outras formas de associar homem, gênero e monoteísmo.
     Na primeira reportagem, de 18 de maio de 2014, o título do Jornal O Globo anunciava: "Superando preconceito, pastor evangélico é também drag queen'. Na segunda, de 22 de maio de 2015, pelo mesmo jornal, o título dizia: "'Tradições imutáveis não ficam vivas' diz rabino ortodoxo gay". Na terceira, de 05 de junho de 2015, o título dizia: "Hoje, Maomé casaria homossexuais". O conteúdo dos textos é baseado em dados complementares e conversas dos jornalistas com as pessoas entrevistadas: um pastor, um rabino e um imã, autoridades religiosas em suas respectivas religiões. O pastor drag queen, Marcos Lord (Luandha Perón) é membro da Igreja da Comunidade Metropolita (oriunda dos EUA, por volta de 1968) e realiza a transformação durante alguns cultos: cílios, maquiagem e peruca em cima do altar. Ele afirmou: "Se você ler a Bíblia ao pé da letra, vai ter muitos problemas" e ainda, "o essencial é o amor e a mensagem que a palavra de Deus transmitem". O rabino ortodoxo gay, Steve Greenberg, um norte-americano, tinha ido ao Rio de Janeiro fazer conferências sobre judaísmo e homossexualismo. Diretor de um instituto (Esthel) de assistência a rabinos ortodoxos gays e transsexuais, o rabino diz: "O texto sagrado não é o fim, mas apenas o começa da conversa". E mais adiante: "As tradições imutáveis não sobrevivem". O imã franco-argelino, Ludovic-Mohamed Zahed, homossexual, e soropositivo, fundou com outras pessoas em 2012, a primeira mesquita inclusiva da Europa, em Paris, a cidade-luz. Em países como Irã e Arábia Saudita, ou mesmo a Turquia (que deseja ser europeia), provavelmente ele não poderia fazer o que fez, escrever o que escreveu, assumir-se publicamente. Se assim o fizesse, seria castigado duramente. De tudo isso, o que se pode pensar?
Casal de Rabinos gays adotando crianças
     O conjunto das reportagens fornece um amplo panorama que desvela uma nova hermenêutica em operação no interior das tradições religiosas monoteístas: primeiro, argumento que entre o texto sagrado e a orientação sexual e de gênero, não há oposição; segundo, sinagogas, igrejas e mesquitas inclusivas, com cultos abertos a todos (indistinção de orientação sexual e gênero); terceiro, os fiéis homossexuais retratados nas reportagens (e muitos outros), não desejam romper com a fé de seus pais, mas ao contrário, reconcilia-lá com outros possibilidades de existir nas sociedades contemporâneas. 
     As modernidades (ou a alta modernidade, como diria Giddens) destroem determinadas tradições (ou diria, determinadas configurações das tradições religiosas), ao mesmo tempo em que as reconfiguram e as reorientam. É continuidade de uma mesma estrutura de tradição ou sua descontinuidade e, portanto, uma outra coisa? Para os conservadores, trata-se de uma destradição, no sentido do prefixo, não natural, um desfazer, um desmanche, outra coisa que não uma tradição, a realidade Real. Mas, faz sentido pensar um real mais real que outros reais? Desde Nietzsche, o texto básico ou original, não existe mais como o Real, mas desde sempre como interpretação, ou seja, há sempre versões e interpretações. Com isso, inaugura-se a era do perspectivismo, na qual não há mais sentido em verificar a existência do original e das cópias, atitude que sempre inaugurou violentas disputas de poder em todos os níveis e esferas, religiosas e não-religiosas ("este texto e interpretação são a Verdade, este outro não", mas qual o critério de veracidade e quem está autorizado a aplicá-lo?). Criar novas narrativas é criar novas perspectivas que podem aprofundar a riqueza e a diversidade, produzir melhores existências e, nesse sentido, as releituras LGBTTI das tradições monoteístas, as enriquecem. Essas releituras não almejam ser a única versão autorizada, mas almejam ser uma entre outras narrativas. A própria ideia de amor cristão, cujo modelo e fonte é Jesus de Nazaré, amplia-se com generosidade risonha: ao lado daqueles que ninguém (Estado, família, poderes do mundo) defende, no caso, a população LGBTTI, ao lado desses perseguidos, humilhados, assassinados, quem está, quem os proteja e os ama? Jesus, que andou com prostitutas, ladrões, traidores (Judas e Pedro) e os amou profundamente. Essa ideia é revolucionária e, desde então, abriu o caminho da suavização civilizacional e acabou penetrando, de alguma forma, na cultura e estrutura político-econômica do Ocidente. Se lermos bem Max Weber, isso não aconteceu sem tensionamentos, mas podemos dizer, parodiando o título de um dos textos weberianos: aceitações, e rejeições, religiosas, no caso, monoteístas, do mundo e suas direções...
     Por outro lado, nas economias e sociedades mais desenvolvidas do planeta, dos EUA aos Países Nórdicos (com maior ou menor ênfase em um capitalismo social, o Estado do Bem-Estar Social), há um inegável veredito: a igualdade é um bem público, um valor moral e, por que não, good for business. Conquistas civilizatórias que, nas Américas, começaram com a abolição da escravatura e a progressiva conquista de direitos civis e sociais, à duras penas e com duras lutas. Contudo, foi na economia de mercado e no regime democrático que essas conquistas se deram e se aprofundaram, mais em alguns países, menos em outros. O capitalismo, enquanto estrutura econômico-política, não é algo que se opõe por natureza e definição, a luta por direitos de minorias, como algumas leituras de esquerda acabam dando a entender. Mas, ao contrário, favorece essas lutas em alguma medida. O problema é a dinâmica da sociedade do espetáculo na nova ordem capitalista que afoga tudo em um não-lugar, em uma infindável sucessão de imagens, uma representação do real (mais do que uma descrição verdadeira da realidade) que se replica o tempo todo e por isso, perde-se irremediavelmente o autêntico, o original, o único. É possível perguntar se estamos prisioneiros dessa necessidade imperiosa de representação, de fazer vir a vida, a tradição, as verdades, o si mesmo, a face (a/o selfie) de novo, e sempre, no palco, na ribalta, numa lógica impessoal da mercadoria na qual esta é viva e nós, os mortos. 
     Ouço o eco da palavras de Marx e Engels no Manifesto Comunista, quando comentam o novo modo de produção que então se anunciava na Europa e EUA: "A burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário. [....]  a burguesia só pode existir com a condição de revolucionar constantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção. [...] Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e ideias secularmente veneradas. Tudo o que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens finalmente são obrigados a encarar com serenidade suas condições de existência e sua relações recíprocas". Chama-me atenção a última frase, as condições de existência tem de ser, enfim, encaradas. E quais são essas condições? Hoje são condições nas quais a economia de mercado faz a mercadoria ser fetiche (a mercadoria, o morto), e na sociedade do espetáculo, para citar Guy Debord, a mercadoria aparece como o vivo, ou seja, como o sujeito que conduz o trabalhador e o consumidor (espectadores do espetáculo), a tornar-se um objeto. 
    Por isso, há mercado para as ideias reacionárias, direitistas, defensivas, conservadoras. Mas, os pretensos sujeitos que nela atuam, pastores como Malafaias e outros, transformam-se em objetos para consumo de uns tantos outros. Um nicho de mercado, em uma linguagem mais econômica, no qual a tradição que se vê como única e verdadeira, também cai na linguagem do consumo, também utiliza os meios modernos de comunicação à disposição para que a mercadoria se torne espetáculo e com isso se faça passar como necessária. 
     A contrapartida do fetichismo da mercadoria é a retirada, do homem e da mulher, do sensível, do único, do singular, e sua substituição pelo palco, luzes, cores, imagens. Acabam-se as distinções produtivas e compreensivas entre conceitos, categorias (o adulto, o homem, a religião, a verdade) e acendem distinções baseadas em fragmentos múltiplos de mito, magia, teorias conspiratórias e outras. Tenho feito muitas pesquisas em redes sociais, sobre religião e religiosidade, em especial gênero e evangélicos, nas redes sociais. Tenho encontrado jovens evangélicas bonitas posarem em selfies sensuais, com caras, bocas e roupas, invocando um salmo, uma palavra bíblica ou uma frase como "Jesus está no comando" ao mesmo tempo em que criticam a novela Babilônia pelas cenas de beijo lésbico. Posso citar também homens evangélicos que numa rede social se apresentam como seguidores de Jesus e da verdadeira família cristã, membros de ministérios de música, e em outra rede social, (Instagram) curtem fotos de homens musculosos em poses sensuais, muitas vezes perfis gays. Ou ainda, pastores que, ao ascenderem à fama e ao poder, inclusive político, apresentam-se muito bem esteticamente, com cabelos alisados, calças apertadas, camisas da moda, mantendo perfil no Facebook e Instagram, bem diferentes do início de carreira, em que a estética estava menos na moda, os cabelos eram crespos e usavam outros adereços que hoje seriam classificados como ultrapassados. A própria Bíblia tornou-se item de mercadoria e espetáculo: a Bíblia de Fulano, a Bíblia de Beltrano. Emerge o mercado gospel e nele são oferecidas, para venda e consumo, as certezas da tradição religiosa (na verdade, de uma das tradições, a que se tornou hegemônica) sobre o afeto, a família, o sexo.
     A engrenagem da sociedade do espetáculo é avassaladora. Por conta dessas confusões semânticas e indecisões, alguns grupos religiosos procuram recorrer as leis do Estado para definir o que é e o que não é, o que pode e o que não pode, no caso, sobre o que é família e o que não é. Isso pode trazer muitos problemas e quando envolve a ideia de plebiscito, as coisas só pioram, já que esse mecanismo não rompe a lógica do espetáculo, ao contrário, é parte integrante da mesma. Por outro lado, o argumento da essência biológica, usado por grupos conservadores para defender a família heterossexual clássica, tem sido apropriado por alguns grupos LGBTTI e, assim, pautar a busca por uma fato que salve suas ideias das flutuações da conjuntura e das injunções da política. Mas, isso não é possível por dois motivos: primeiro, uma visão errada sobre a biologia e a genética, esquecendo-se que hoje as tecnologias biogenéticas permitem reconstruir o biológico em diversos níveis e, segundo, porque esse recurso congela a identidade e partilha das mesmas raízes argumentativas dos grupos religiosos conservadores, sendo, assim, passível das mesmas objeções.
     Por isso estou convencido que há posturas profundamente infrutíferas para ler e compreender as tantas fenomenologias contemporâneas que trazem para as tradições religiosas, novas pontes semânticas entre o texto sagrado e as realidades contemporâneas da sexualidade e do gênero. A primeira delas é a defensivo-reacionária-direitista, apelando para uma tradição como texto básico, único e verdadeiro (a família, a religião, a nação), diante do qual os outros textos são versões pioradas, ou pior, que devem ser censurados porque "contaminam" todo o real. Mas, quando os grupos religiosos evangélicos conservadores se mobilizam para criar o dia do heterossexual ou para barrar o reconhecimento dos direitos de minorias sexuais (LBGTTI), por exemplo, acabam reconhecendo que o texto único da tradição já não é mas único e muito menos Tradição (com T maiúsculo), auto-evidente e fora de questão, a Realidade na qual todos estariam imersos, fora de nenhuma dúvida. Não é mais assim desde há muito tempo, ou ainda, desde sempre o real foi uno e múltiplo, simultaneamente. 
Os falsos profetas
Gravura de uma Bíblia medieval, século XII -
Inglaterra
     No mesmo ato em que os grupos monoteístas tradicionais, ao se sentirem desafiados, procuram provar por a mais b que a tradição que professam é Tradição, é também o mesmo ato no qual a clara e absoluta evidência da Tradição se desfaz, mergulhando em incertezas e céus nublados. O Uno soçobra no Múltiplo. Faço um parenteses: a história das sociedades mostra muitas heresias nascendo dos troncos monoteístas (hebreu, cristão, islâmico) desde a origem ou dos primórdios. Essa ideia de origens, é também uma construção mítica. Por exemplo, a rigor, o cristianismo foi uma seita da religião hebraica. Alguns pesquisadores das ciências da religião não gostam do nome, mas faço uso sem a pejoração. Essa questão se torna particularmente rica no contexto das antigas semânticas, muitas das quais ficaram esquecidas à cantos de rodapé em livros de história das religiões. Vou dar um exemplo: entre os séculos século X-XIII, época cheia de heresias, emergiram os adamitas, os homens e mulheres do livre-espírito e outras seitas cristã-católicas propondo novas formas de existir e amar, de construir laços sexuais-afetivos e produzir os bens da existência (comunais), em geral, baseados numa leitura teológica interessante das palavras dos quatro evangelhos canônicos: se Jesus morreu por nosso pecado, nos resgatou por seu sangue na cruz derramado, a dívida está paga, e, portanto, não há mais pecado, não há mais dívida... Uma lógica simples, com consequências profundas: os adamitas andavam nus pelas vielas medievais e mantinham relações sexais livres entre homens e mulheres. Mas, antes disso há João Escoto Erígena, teólogo que em 851 dizia no livro Das Predestinações: Deus não prevê nem os pecados nem as penas porque são ficções. Quatro séculos depois, um clérigo católico, Amauri de Bena (perto de Chartres, França), retoma essa ideia e diz: Cristo já redimiu todo pecado e assim, nos restaurou de vez, portanto, não se paga uma dívida duas vezes. Há consequências radicais desse postulado: assim sendo, se os pecados estão todos perdoados e as dívidas pagas no Sangue da Cruz, não é necessário nenhum sacramento, dando um forte golpe nos profissionais do sagrado que eram (e ainda o são) os clérigos católicos. Já no século da Reforma Protestante, por outros motivos, aboliu alguns sacramentos católicos, mas de seu leito social-teológico nasceram os grandes movimentos anabatistas (o nome seria por conta da recusa ao batismo infantil), e desenvolveram uma profunda sede de revolução na Alemanha baseada na ideia de volta ao cristianismo primitivo (partilha total dos bens e propriedades). Foram liderados por Thomas Muntzer, mas até hoje são figuras pouco estudadas e citadas.
    Dessa forma, a simples existência dessas retradições, ou seja, de outras semânticas que conectam a tradição religiosa a outros modo de viver, amar e ser, tem diversas implicações e que causam fúria nos conservadores monoteístas: primeiro, o Real abriga uma pluralidade real, palpável, concreta e mesmo apontada como "errada", ela continua existindo; segundo, a pluralidade manifestada e irradiada, implica, a contragosto dos religiosos conservadores, que o texto único e original existe também como desejo e como medo: medo de perda de si no outro, medo da perda do monopólio interpretativo de uma versão do texto sagrado; e terceiro, no âmbito da atual estrutura capitalista, esses grupos conservadores religiosos são prisoneiros também do jogo das narrativas do espetáculo. O que eles oferecem tona-se uma mercadoria a ser consumida no mercado, ou seja, estão presos nas rodas do Facebook, dos shows. Não há mais uma verdade esplendorosa que basta a si mesma, brilhando por si, sem precisar de espelhos para amplificar o brilho. Chegou-se a uma situação incômoda: a Tradição precisa da voz do espetáculo para se apresentar a todos como tal, mas o que é apresentado é um falsete, artificio usado no canto de ópera para produzir uma voz não-natural. 
     Ao usarem os meios de comunicação, mobilizarem marchas e outros mecanismos (mudar ou impedir leis) em plena sociedade do espetáculo, esses grupos defensivo-conservadores terminam por criar um arremedo ou um remendo de tradição e de texto único. Se o texto único da família realmente fosse imperioso e único, não seria necessário qualquer tipo de ajuda para que ele assim se apresentasse e fosse aceito e por todos internalizado e interiorizado. Isso aumenta, não a certeza da identidade verdadeira, mas ao contrário, agudiza a sensação da pluralidade, de perda do único. No combate a outras versões minoritárias de leitura dos monoteísmos, o resultado, em uma sociedade de mercado com democracia representativa, é a fortificação, aumento e proliferação indefinida dessas mesmas versões, uma sangria desatada. Quando esses grupos conservadores religiosos monoteístas lutam dessa forma e com esses instrumentos, mesmo que inconscientes, tornam-se arautos de um tipo de niilismo, fazem mover águas para o moinho da secularização como ampliação do espectro de crenças e comportamentos religioso, espirituais e não-religiosos. Contudo, os grupos minoritários de raça, gênero ou sexo, também estão presos nas narrativas da sociedade do espetáculo e submetidos às vicissitudes inscritas na lógica dessa mesma sociedade, na qual a mercadoria e o consumo estão "logados", imbricados, fundidos. Com esses grupos, ocorre um pouco do que acontece com os grupos reacionários-conservadores: as representações do real tornam-se "metafísica" da pluralidade, uma metafísica da diferença e do Múltiplo anteposta à metafísica do Um e do Único dos outros grupos religiosos. Serão os dois grupos, órfãos do Único e do Múltiplo? 
     No duelo das duas metafísicas, a da Um e a do Mútiplo, a agonia da escolha aumenta e a fuga desabalada para a certeza aliada à busca das muralhas do não-diálogo, é uma grande tentação. Pode emergir uma postura bélica de combate e censura à outras versões e outras vivências ligadas ao Múltiplo. Como a sociedade do espetáculo a tudo transforma em representação, tornando a mercadoria o centro do espetáculo, a fuga para a certeza, o não-diálogo e as muralhas defensivas de uma tradição só permanecem como simulacros e fetiches. São, em outras palavras, objetos que aparecem como vivos e como sujeitos (embora não o sejam), mas que transformam os vivos, homens/mulheres, em objetos (embora não devessem ser), submetidos à lógica do capitalismo-espetáculo. Tornam-se mortos-vivos da Tradição e do Único. Todavia, do outro lado das margens, pode ocorrer o mesmo, mortos-vivos do Múltiplo...

     Outra postura infrutífera é que, pelas mãos de uma esquerda-progressista, passou-se a enxergar algumas diferenças como "essenciais" em sua especificidade e as leituras do real, tornadas mais reais, numa nostalgia metafísica de um real social perdido, mas que poderia ser recuperado por meio da luta revolucionária. Por exemplo, defende-se a ideia de um  endemoniado imperialismo norte-americano absoluto, interventor em todos os países contra todas as lutas sociais. Essa narrativa não é boa porque omite as grandes lutas democráticas e as conquistas de direitos civis e sociais de minorias (negros, homossexuais, mulheres) travadas, justamente, no interior da sociedade capitalista norte-americana (e não na chinesa, iraniana ou saudita, embora existam muitas formas de existir pluralmente nessas sociedades), sendo fonte de inspiração para amplos movimentos e lutas de minorias, em especial as sexuais, em muitos países. Essa postura não muda os termos da equação, apenas aumenta a aderência dos simulacros de identidade numa mesma direção, mas em sentido oposto ao que as maiorias conservadoras fazem quando brandem a "ameaça comunista", a "nova ordem mundial" e outras teorias conspiratórias amalucadas. 
     Os grupos conservadores religiosos tendem a perpetuar o texto antigo e a família padrão heterossexual por meio do recurso a plateia-espetáculo (plebiscito) e  do poder legislativo (leis e outros dispositivos legais). Contudo, todos estão no palco, presos ao espetáculo que precisam representar e representar a todo custo: a grandeza, a seriedade e solenidade, perdidas ou ofuscadas, da antiga lei e da antiga ordem ou da pluralidade diversa do ser-outro, do ser múltiplo. Deputados-pastores e líderes evangélicos pentecostais conservadores clamam a favor do Um e do Único, fazem marchas, vociferam nas redes sociais, fazem propaganda do Real, da Tradição, da Verdade, pintam o Diabo, mas se houvesse o Real, a Tradição, a Verdade como evidência inconteste, estes não necessitariam de tantos arautos bufos, balofos, inchados, artificiais, espetaculosos. Pensando em termos de mercado e espetáculo: essas ideias monoteístas conservadoras vendem alguma coisa? Vendem um pouco, mas mais para dentro das "muralhas", ou seja, para fileiras convictas de militantes da causa do Um, do que para fora: são cafonas e desatualizadas para muita gente.
     Assim, cabe perguntar: entre um casal heterossexual com laços civis-matrimoniais e um casal homossexual com laços civis-matrimoniais há de fato uma nova estrutura ou haveria aí, uma retradição? São coisas muito diferentes ou são muito iguais? Nem tão diferentes, nem tão iguais: a ideia do amor, da lealdade, da fidelidade, do contrato afetivo entre si e com filhos, naturais ou adotivos, obrigações morais, civis e econômicas, estão evidentes nos dois exemplos. Na guerra declarada e travada entre a semântica reacionária (sustentada por alguns líderes evangélicos e políticos) e a das minorias, há toda uma grande diferença. Mas, entre os defensores da antiga lei e das novas possibilidades de etos (os da família tradicional e os dos novos modos de família) parece haver uma insuspeita semelhança: há uma família, um laço, um contrato afetivo mútuo, obrigações e deveres recíprocos, seriedade, dedicação, responsabilidade econômica e moral, e acima de tudo, amor. A ideia do amor, inaugurada por Jesus Cristo, fundador do cristianismo, é aquela que, no Mundo Ocidental, venceu a ideia do contrato clânico-antigo (venceu a honra romana e outras tantas ideias) e por ela se batem as novos modos de existir como família. Ser pai e ser mãe não parece ser uma questão restrita à biologia, mas uma questão psicossocial, fraterna,de afeto e responsabilidade. E isso vale para ambos os lados do campo de batalha: não há pais heterossexuais adotivos? (Ou seja, o contrato familiar é pelo amor e afeto...) Como ficam essas questões nos monoteísmos diante de uma sociedade do espetáculo-mercadoria? É preciso muito cuidado com o andor, pois o santo é de barro. 
     Mas, bem que poderíamos tomar a frase do rabino gay (o texto sagrado não é o fim da conversa, mas o começo...) e continuar a conversar, continuar o jogo de pedir e dar razões, com fundamento e inteligência, pois é uma das formas de escapar dos moedores de gente que a sociedade do espetáculo pôs em funcionamento.

Referências.
1) http://oglobo.globo.com/rio/superando-preconceito-pastor-evangelico-tambem-drag-queen-12522426;
2) http://oglobo.globo.com/sociedade/tradicoes-imutaveis-nao-ficam-vivas-diz-rabino-ortodoxo-gay-12558576;
3) http://brasil.elpais.com/brasil/2015/06/03/internacional/1433360357_456152.html.
4) MARX, Karl. ENGELS, Friendich. http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/manifestocomunista.pdf
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