Religião, política e mitologia: a operação Lava-Jato e o líder popular

Pensei em um outro título para este texto: “Como se livrar de idolatrias” ou “Vesti meu cosplay, mas não perdi a lucidez. E você?” O primeiro sugere alguém que está acima dos problemas da realidade, um iluminado. mas, não sou um iluminado diante de não-iluminados. Tenho apenas uma pequena lanterna e estou diante de uma longa noite. Às vezes penso que a madrugada logo irá ceder aos primeiros raios do sol. O segundo título pareceu-me simpático, mas corre o risco de ser interpretado como brincadeira diante do abismo político em que estamos. É um momento sério. todavia, é também um enriquecimento para nossa experiência democrática. 

É isto, prezado leitor ou leitora, o segundo subtítulo, apesar dos senões, pode ser rico de sentidos: a junção entre política, religião e mitologia, o transe dos mitos e das imagens. Antes de continuar, uma declaração: assumo uma posição no front de batalha, esperando que melhores lideranças surjam; finco o pé na trincheira da esquerda republicana, do liberalismo político, das liberdade individuais, de expressão e da busca da igualdade e justiça social.  



Penso que vivemos uma intensa relação entre mito, religião e política. Cassandra, a profetisa de Troia, está na batalha contra o golpe e pela democracia, mas dorme e quando o faz, sente que está em um sonho ou em um pesadelo, dependendo da perspectiva. Líderes e seguidores, de ambos os lados do espectro político e social, vivem um delírio coletivo, encarnam um grande teatro, em que realidade e imaginário se misturam.

Para explicar isso, remeto a Clifford Geertz, antropólogo norte-americano. Ele fez um grande estudo sobre ritual, religião e política. O livro chama-se Negara – O Estado Teatro no Século XIX, eis um trecho: “(...) as ideias não são algo de mental cuja observação seria impossível (...) significados veiculados através de símbolos, definindo estes como algo que significa (...) entre o simbólico e real, estético e prático (...) o real é tão imaginado quanto imaginário. Corolário: a política é acção simbólica”.” 

Os modernos positivistas acham que religião, política e mitologia são reinos separados e que não se misturam [e não devem ser]. No campo da análise teórica, de fato, são dimensões com linguagens específicas. Mas. na realidade, religião, política e mitologia intercambiam-se, embora necessitemos investigar como os fios de cada dimensão enroscam-se com os da outras dimensões.

Bruno Latour, filósofo francês, escreveu um livro chamado “Jamais Fomos Modernos”. No atual cenário político, penso que realmente, nunca fomos modernos. Por que? Acompanhe meu raciocínio. Imagine e deixe-se colocar em ambas as posições dos espectros políticos. Parta de seu preconceito e da linguagem que você usa, que é a condição de possibilidade de seu horizonte - segundo a hermenêutica de Hans-Georg Gadamer, filósofo alemão - e empreenda o encontro com o horizonte de possibilidade do outro, ou seja, o preconceito que ele também possui e que também é o horizonte de possibilidade dele. Preconceito entendido aqui como o que vem antes do conceito, a primeira imagem da realidade, a imagem inicial. Faça o círculo hermenêutico girar. Vista o cosplay, mas não perca a capacidade de imaginar possíveis mundos e de agir de forma política com sinceridade. 

A militância partidarizada, sem reflexão intelectual, encurta a imaginação e o diálogo e, com isso, a renovação da capacidade de ação no mundo. Sigamos com meu raciocínio: de ambos os grupos, direitas e esquerdas partem impressões, imprecações, preconceitos, direcionado contra os grupos que imaginam que são antagônicos. 

A mitologia se faz, mais uma vez, um importante recurso de compreensão do atual quadro. O Juiz Moro e o Líder Lula são apresentados, em especial pelas mídias ligadas aos grupos políticos que os escolheram como ícones. Como poderosas imagens, acabam distorcidas e retorcidas, ou pela direita e seus militantes ou pela esquerda e seus militantes, e os grupos que lhes dão sustentação imaginária, social e econômica. 

Por que reforçar estereótipos nas imagens? Aos dois grupos, os de esquerda e os de direita, interessa levar a efeito uma disputa de imagens. Para que? Como arma política. A disputa política pelo poder na democracia não é apenas uma disputa de votos individuais, como se os eleitores fossem apenas umas unidades subjetivas que decidem tudo racional e reflexivamente. Falta um pouco antropologia na ciência política que analisa os fenômenos e realidades sociopolíticas. 

As decisões e disputas eleitorais democráticas no mundo moderno [desencantado, dizem os secularistas] se decidem [também] pelo imaginário, pelo mito e pela religião. Para a direita partidária, coadunada com uma direita social [os donos da Casa Grade] interessa distorcer a imagem de Lula e aplaudir a de Moro, procurando instrumentalizá-las para impedir ou fazer retroceder os grandes avanços sociais. Com isso, a direita faz grudar a causa da justiça e da igualdade social à imagem de Lula. Qual objetivo? Derrubada e profanada a imagem, a causa fica bem combalida e a narrativa da direita ganha fôlego e obtém vitória eleitoral. 


Para a esquerda, interessa o contrário: defender a imagem de Lula e atacar a de Moro na tentativa, segundo essa imagem, de impedir a derrocada das políticas sociais que mudaram nosso país e de preservar o legado de Lula. Com isso, ambos os lados do espectro político fazem grudar ainda mais a imagem do líder das esquerdas à causa da justiça e das conquistas sociais. E vice-versa: quanto mais as esquerdas peleiam contra Moro e quanto mais os setores de direita o exaltam, mais a imagem de justiça gruda na figura do Juiz Moro e da Lava-Jato. Esse movimento é um desastre para as esquerdas porque as percepções de imagem estão mudando velozmente e em sinal trocado, enquanto uma ganha credibilidade, a de outro declina no conjunto da sociedade. 


O centro político do espectro, a “massa” e a classe média, estão mudando a percepção das imagens, das narrativas e com consequências políticas concretas para o futuro. Como antropólogo e cientista da religião que sou, estou sob duas vocações: a da ciência e a da política, como diria Max Weber e sofro a tensão dos dois domínios. Mas, independentemente dos fatos sobre uma figura ou outra [Lula/Legado e Juiz Moro/Lava Jato] serem realmente verdadeiros ou falsos, a percepção mudou e estamos em pleno processo de luta pela hegemonia, mas desfavorável a Lula/Legado. Ambos os personagens reais, Juiz Moro e Lula Líder estão incorporando [em transe] esse papel imaginário para si mesmos; estão encarnando o papel de ídolo ou por encantamento ou como recurso de defesa. Moro está encantado com a nova roupa do bem, para direita; do mal para a esquerda e Lula está recorrendo ao antigo script (o do grande e justo líder injustiçado, para a esquerda; o do hipócrita e cínico para a direita. Ambas as militâncias participam do grande teatro mítico-político. 


Há, com isso, uma falsa problemática: do lado de lá, só existem ídolos ruins, perseguidores, corruptos, que não podem ser justos por absoluta impossibilidade ontológica; do lado de cá só existem ídolos e heróis bons ou, no máximo, anjos incompletos, mas cuja natureza ontológica os predispõe serem justos e bons. 

Com esse teatro político em curso, é importante desempenhar o papel mítico com maestria e, nesse caso, colocar em segundo plano os dados histórico, sociais e políticos concretos [e que arranham um lado e outro, pois há elementos concretos contra Lula e contra o Juiz Moro]. Isso é um problema, porque se perde a lucidez. Obviamente que os atores [líderes e seguidores] tem carne e osso, tem defeitos e problemas. Só que no choque entre realidade e imagem [embora juntas, são distintas], há muitas coisas que não se encaixam bem e em ambos os lados. Usarei o recurso do exagero para produzir algum bom senso na guerra dos deuses. Imagem 1. Tudo o que o Juiz Moro fez e faz é mentira, engodo, manipulação absoluta e desprovida de qualquer fundamentação jurídica; não há nenhum milímetro de desvio, de crime ou outra coisa na conduta de Lula e do PT é tudo invenção jurídica, estando a serviço de um grande complô para derrubar o maior líder e todas as políticas sociais que ele representa. Pense na imagem oposta: tudo o que o Juiz Moro faz é lindo, justo, verdadeiro, com absoluta fundamentação jurídica, só há crimes e problemas terríveis e inomináveis em Lula e no PT [e em nenhum outro partido], e não há nenhum interesse de setores da direita em aproveitar suas ações. Para cada item que consta nos exageros que eu fiz, você pode imaginar um senão.
Faça o mesmo exercício com Lula Líder e repare que o exagero mostra nitidamente a distorção da imagem e o nonsense. O exercício do exagero pode fornecer boas guias, impedindo a prisão no atoleiro das militâncias descabeçadas. Se isso não for feito, uma correta interpretação fica prejudicada, pois na guerra dos deuses, todo mundo encarna um papel e esquece-se dos indícios e demandas do real. E, se você é de esquerda, você deve ficar preocupado, não porque o que se atribui a Lula e ao PT sejam a mais pura verdade ou a mais nojenta mentira [pese e avalie o que há de mistura de real e imaginário em cada fato e narrativa], mas porque na guerra das imagens, a de Lula está em franco declínio e, por conta das dinâmicas que falei, traz altos risco para a causa social que ele representa. 

Os movimentos de luta política  da direita e da esquerda reforçam o vínculo entre imagem e personagem real. Por uma série de problemas reais e suas conexões com as imagens [por exemplo, a adoção da política econômica do adversário das eleições de 2014, a morte do processo de prévias no partido, as reações diante dos processos – como a fala no depoimento da Lava-Jato etc.], a imagem está em queda livre, com acentuada perda de credibilidade. Se você é da direita, a mais reacionária [não a liberal-conservadora], não pense que pode manipular esse processo ao seu favor e voltar ao Brasil de antes das grandes políticas sociais. 

A realidade mudou em muitos aspectos e as pessoas/segmentos beneficiados não vão abrir mão disso. As vaias aos políticos da oposição numa das maiores manifestações desde as Diretas-Já mostram outra realidade: a falência do sistema político e sua capacidade de imaginar mundos possíveis. As pessoas estão saturadas e não se deixam convencer mais pelas duas narrativas que estão disputando a hegemonia desde nossa redemocratização pós-ditadura. Há um tremendo cansaço com o imaginário do atual sistema político. Contudo, quem decidirá o futuro? Uma série de problemas [o sistema de compadrio e conchavo que o presidencialismo brasileiro vive e que não foi desmontado nem por lado e nem por outro, as atuais políticas econômicas que penalizaram as bases sociais e não ajudaram a aliviar os problemas da classe média, a ruptura dos privilégios e preconceitos gerando com isso ódio das elites contra as causas sociais, as imperícias e movimentos errados das esquerdas, o caixa dois das campanhas do PT, etc.] fazem com que a imagem e a narrativa das esquerdas esteja em queda. Será possível recuperar a antiga hegemonia e conseguir convencer novamente? Será possível que outros líderes poderiam encarnar as causas sociais da esquerda? 

Do jeito que está, a imagem do grande líder está afundando e, junto com ela, a imagem da causa. Uma mudança favorável das atuais condições dependeria das ações dos líderes que a encarnam, dos militantes e de outros fatores, mas, há muitas variáveis em jogo e ninguém pode controlar todo o processo, todos os efeitos, nem as esquerdas e nem as direitas. 

Eu fiz esse exercício e vi que não há heróis, deuses, demônios ou anjos reais, Estou em dúvida agora. Se não são reais, pelo menos como semântica e retórica o são, pois já fazem parte do real. O mundo das imagens e dos imaginários faz parte do real. Mas isso é outra discussão para outra oportunidade. Com esse exercício, eu notei a junção entre o real e o imaginário, entre os dados históricos e sociais e os interesses de instrumentalização política, de ambos os lados, e que estão em movimento. Eu encarnei o meu papel mítico, vesti o meu cosplay, mas não perdi a lucidez. E você?
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