A gravidade e a graça: religião, identidade e conflito

Acompanhei ao longe, a discussão sobre apropriação cultural, carregada de emoção. Sobre isso, faço algumas breves notas, sem a menor pretensão de esgotar um assunto que se transformou em celeuma: a jovem branca escolheu o turbante para enfrentar efeitos psicológicos do tratamento de câncer, não por apropriação cultural. A bela estética do turbante lhe trouxe uma perspectiva de auto-estima, de enfrentamento da doença. Pelo que se depreende, ela não tinha intenção de usar o vestuário, mas teve de usar por conta de ser uma alternativa real para amenizar as dores e transtornos psíquicos com a queda dos cabelos.

Não existe "apropriação cultural" nos termos em que o debate está colocado. O que é apropriar-se? É, em curtas palavras, tornar algo, alguma coisa, que pertence a outrem, propriedade sua, tomar conta de algo que não lhe pertence. Quando se acrescenta o termo cultural, pode-se dizer tomar um elemento cultural que pertence a outrem, seu. O termo remete para um sentido jurídico-violento, impróprio para discutir as trocas e intercâmbios culturais. Não quer dizer que não haja apropriação, por exemplo, os bens culturais [pinturas, arte, livros] dos judeus foram expropriados e apropriados pelos nazistas. Ora, ninguém, em termos de indivíduo, é dono de símbolos culturais mais amplos, que ganharam universalidade, que mudaram seus sentidos com a atual sociedade midiático-consumerista.

Mas, a discussão enveredou por trilhas tortas desde então. Militantes e não-militantes armaram-se de argumentos e começaram a prolongar uma discussão tornada polêmica e [até mesmo improdutiva], com posições fechadas, algumas mais outras menos beligerantes.


A polarização dos debates aumentou a polêmica e um caso simples transformou-se em um cavalho de batalha para movimentos, pesquisadores e público em geral. os argumentos giravam em torno do racismo, do direito de ser e usar, da marca identitária, da dor maior, a sociedade capitalista que rouba e se apropria de tudo para mercantilizar. Esta última é uma ideias ruim para pensar um fato corriqueiro da cultura e das sociedades humanas. E a coisa acabou rolando ladeira abaixo, algo como as cicatrizes mais profundas e verdadeiras, o mais ou o menos autêntico, o que apenas aumentou a confusão de conceitos e categorias.

Com as posições acirradas, resolvi saltar o assunto e lembrei de uma antiga questão [Procópio Camargo e Prandi]: a mudança do candomblé de um registro étnico [restrito, singular e específico] para um registro universal [para todos e todas], com a conversão de brancos, inclusive franceses (Verger ou Gisele Binon, esposa de ex-diplomata francês, a primeira mulher estrangeira a ocupar o posto de mãe-de-santo no Brasil) e outros, muitos deles antropólogos e pesquisadores.

Podemos ver a questão como um movimento entre a busca do étnico e do universal. As duas buscas sempre em confronto. O modo étnico pensa os traços da identidade como um direito próprio, singular, não-transmissíveis, exclusivos. O sentido e o significado são tidos como propriedades e sua semântica é vista como estável, não passível de mudanças e novas significações. O modo universalista pensa os traços da identidade como abertos, acessíveis e para todos, transmissíveis, assimiláveis, passíveis de adquirir novas semânticas e significados. 

Nesse campo, é interessante lembrar a história de Gisele Binon, branca, francófona, afro-marroquina, de família católica, classe média alta, republicana e culta, que se tornou mãe-de-santo [a primeira mulher branca estrangeira] em uma religião que outrora fora classificada pela história e sociologia das religiões como étnica, exclusiva e restrita aos negros e seus ancestrais africanos. 

Veja a história neste link: http://brasileiros.com.br/2008/12/mae-de-santo-a-francesa/.
Gisele Cossard Binon, francófona,
Nascida em Marrocos, África, filha de de pais franceses,
Primeira mãe-de-santo branca e estrangeira no Brasil

Por fim, pensando em uma antropologia filosófica, parece que há duas margens para o mesmo rio da cultura, da história e da vida.

Uma margem valoriza e ressalta a marca étnica, exclusiva, grave e ontológica, cujos traços e elementos seriam posses/usufrutos reservados aos marcados [aos seus herdeiros e ancestrais]. Só eles poderiam autenticamente viver/entender os traços e elementos identitários, ninguém mais.

A outra margem valoriza e ressalta a marca universal, a metáfora, o híbrido,o transversal, a circulação [identidade aberta, o contrário da ontologia]. Um lado busca a gravidade, o outro a leveza [sem valoração negativa]. Entende-se o porquê: uma sociedade veloz, com espetáculos e circulações em todos os níveis, em que quase tudo se mistura com quase tudo, é capaz de despertar paixões; a nostalgia e a esperança do sujeito ontológico, objetivo, real e verdadeiro em sua singularidade incomparável. Existe mesmo esse sujeito, ou é um desejo ardente que ele exista, de fato?

Contudo, para encerrar, onde há pureza, em sentido histórico-cultural? Onde não há mistura e des-misturas? Onde não há conflitos por conta das circulações culturais?
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