Sagrado e Dessacralização: rastros pós-seculares


Revisitado um sem número de vezes, o termo “sagrado”, permanece como totem para algumas tribos de cientistas da religião e como artefato arqueológico para outras. Por uns é adorado, por outros é repelido, mas volta e meia ele é visto andando entre os homens e mulheres. Alguns dizem tê-lo visto lançando flertes com a cultura de consumo ou navegando nas novas redes eletrônicas; outros dizem que se escondeu na utopia biogenética da saúde e criação de vida ou ainda, entrando e saindo em rituais mágicos e religiosos, a torto e a direito, em todas as famílias religiosas, dentro de templos monumentais, barracões de zinco ou shoppings centers, ou ainda, nas ruas, em marchas cristológicas. E, ao seu encalço, caçadores de borboletas com finas redes epistemológicas ou hackers refinados criptografando bytes místicos.
Diante do tiroteio de fenômenos empíricos e das disputas semânticas, teima uma pergunta: o termo “sagrado” ainda tem fôlego hermenêutico na contemporaneidade do fenômeno religioso? Quando o mercado, o consumo, o shopping center e o videogame e são vistos como símbolos e/ou locais do novo sagrado na sociedade capitalista, em oposição ao velho sagrado, então o que é sagrado? É difícil tomar este termo entre as mãos, deixa-lo fluir entre os lábios e estalar nas palavras, ambíguo que é até os ossos. Supõe tanto separação, quando contato; tanto vertigens endoidecidas, quanto disciplinas pétreas. Nele cabem sentidos ambíguos e paradoxais; habitam-no as religiões, mais ou menos institucionalizadas, esgueiram-se entre suas doxas, terreiros, altares e cantos.
Um dos sentidos da palavra sagrado (apartado, separado) tem suas raízes fincadas no mundo indo-europeu, nascido de vivências históricas e culturais singulares. Projetada como índice universal por estudiosos da cultura semita, a palavra “sagrado” foi abraçada por filólogos, historiadores, sociólogos, teólogos e fenomenólogos. Tornou-se mensurador de um sem número de experiências do além e do aquém. Mas é de um sagrado fundamental que as promessas de salvação ricocheteiam moral conservadora sobre os parlamentos e legislativos, tornando-as um arbusto chamejante diante do qual as sandálias das minorias sociais devem ser postas de lado. Um sagrado de dois gumes, o impuro e o puro, a sombra e a luz, o verso e o reverso. Contaminação, por um lado, com um longo desfile de rituais, mitos e cosmologias de purificação, exorcismo e afastamento; contágio por outro, com um rico cortejo de rituais, mitos e cosmologias do transe, possessão e êxtase. O sagrado sempre trafega nos trilhos da história e da cultura, das tradições e inovações religiosas. É veiculado, e inoculado, nos e pelos desejos de homens e mulheres, ricos e pobres; das classes trabalhadoras e burguesas, das castas ou estamentos patrimoniais. Para alguns, a religião é pálido reflexo do sagrado selvagem, que volta e meia espoca no grito extático dos pentecostais, na gira atrevida das danças afro-brasileiras, no silêncio aveludado das iogas, no caleidoscópio psicodélico new age, nos latinórios tradicionalistas, na cristalina mensagem dos espíritos ou do Espírito Santo, movendo os sapatinhos de fogo ou as correntes de prosperidade.
Nas sociedades modernas, a identidade religiosa ou espiritual de massas é um horizonte simbólico importante, mediado por uma cultura do consumo, de origens românticas. Porém, as massas, classes e grupos sociais, apesar dos experimentalismos, não querem perder totalmente de vista a identidade normativa e daí a resistência em negá-la ou vê-la denegrida por outros. Por isso, o marco identitário normativo-ontológico ainda é importante para muitos indivíduos e grupos em sua busca de âncoras sociais para o sagrado. Por isso, um ponto importante na produção do sagrado nos discursos religiosos são os circuitos e os tráfegos simbólicos (transmissão, reprodução, continuidade e descontinuidade) entre rituais e mitologias. A cultura digital, o midiativismo e as estratégias de apropriação de ferramentas tecnológicas das redes, como o Facebook, Twitter e outras, para causas e objetivos religiosos, implodem as distinções entre espaços culturais e religiosos, entre semânticas seculares e não-seculares. Brotam micro-contaminações entre semânticas diferentes, fecundando pensamentos religiosos e sociais com novas terminologias, territórios e fronteiras.
A globalização econômico-financeira, em compasso-descompasso com a globalização cultural, e os consequentes fluxos derramados sobre a religião, e desta para outras esferas do social, geram e multiplicam precariedades sociais e existenciais, mas também geram novas dinâmicas de busca, resistência e vivência social e religiosa do sagrado. 
Perante a rotina da modernidade, instalaram-se novas dinâmicas de resistências, criações e invenções discursivas com o seguinte horizonte: universalização dos meios de produção capitalista mercantil e infraestrutura pública; constituição de novos circuitos e mercados de bens e serviços (emergências dos mercados simbólicos); emergência de intelectualidades (religiosas e não religiosas) paralelas à universidade com possibilidade de apropriação tecnológica (software livre, códigos abertos, cultura digital).
Por isso, os neoconservadores no campo da religião e da sociedade, desejam reinventar antigas fronteiras. Nostalgia da tradição. E é o que se põem a fazer, favorecidos paradoxalmente com as novas mídias e a ampliação do espaço público, pois assim os discursos circulam com rapidez, intensidade e ressonância. Observe-se, entretanto, que as formas e velocidades de interpretação e de ação religioso-política variam enormemente. As variáveis socioculturais e biográficas (escolaridade, renda, região e outras) modulam ritmos de absorção, recusa, complementação, oposição e ressignificação de fronteiras e experiências espirituais entre grupos e famílias religiosas.
Nos novos contextos, as mesclas entre discursos operam freneticamente, aproximando cosmologias religiosas e morais.  Em tal ambiente de fluxos, as religiões dissolvem-se em miríade de atores e discursos, mas ao mesmo tempo, galvanizam-se em redes e troncos, enfeixados por elementos discursivos comuns. Portanto, parece haver um processo de transversalização de tópicos discursivos que emergem em eventos, ações e falas de líderes e grupos religiosos.
Observam-se pelo menos dois grandes conjuntos de tópicos semânticos que circulam entre as religiões no Brasil contemporâneo, com variações, é claro, mas pelo qual o sagrado bifurca sua língua: dinheiro e prosperidade de um lado, e de outro, corpo, felicidade e bem-estar. 
Conhecidos são os discursos e gestos dos líderes evangélicos neopentecostais exaltando a prosperidade e o dinheiro. Os rituais são criativos e as releituras da Bíblia se parecem com hermenêuticas pós-modernas. Por isso, não custa lembrar uma das míticas origens dessa teologia, a frase atribuída a um convertido ao evangelismo norte-americano e posteriormente participante de uma seita gnóstica cristã (Ciência Cristã): “O que eu confesso, eu possuo”.
Nos espaços religiosos brasileiros, letras de música gospel, mantras hindus, pontos de umbanda, entre outros, expressam redefinições semânticas que enfatizam a alegria, o bem-estar, a superação do sofrimento e da dor, constituindo o corpo como índice e critério de espiritualização. O sagrado difundiu-se, dispersou-se, transmutou-se. É o de Rudolf Otto, o que fascina e atemoriza ao mesmo tempo? Um mundo de sagrados tradicionais e clássicos foi dessacralizado, desconstruído, veio abaixo. Max Weber falou em desencantamento do mundo: no céu não há mais anjos e deuses ou deusas. De fato. Mas, ao mesmo tempo há multidões que creem nos renovados encantos da magia e do sagrado. Sagrado e Dessacralização andam juntos nas sociedades pós-seculares: há espaço para múltiplas linguagens, a mítica, a científica, a acadêmica, a religiosa, a poética, a histórica. O problema é a linguagem literal, o pé-da-letra. Se apenas ficamos com a literalidade, empobrecemos, perdemos a dimensão das muitas linguagens humanas. 
Linguagens
O céu é da astronomia e dos deuses, deus, anjos, demônios, entidades etc. O sagrado migrou por mil circuitos e lugares. Onde está hoje? Um dos lugares é o corpo, imantado pelas cinestesias, visões, audições, sabores e humores dos mil cultos religiosos. A ampliação e a circulação da noção de prosperidade atingem outras searas, como as espíritas, herdeiras da desconfiança católica em relação ao lucro capitalista. Com isso, práticas sociais são redefinidas. Com títulos como “a senhora dos espíritos” ou “o império espírita”, a revista Isto É entrevistou em maio de 2013, a famosa médium Zíbia Gasparetto e fez uma provocativa pergunta sobre dinheiro e mediunidade. Ela respondeu: “O que essas pessoas têm contra o dinheiro? [...] O dinheiro é do mundo! E fica aqui. A gente responde pelo que faz com o dinheiro e eu estou fazendo bom uso dele”. As ideias de felicidade, bem-estar e cura são cotidianamente ditas e reditas, circulando em livros, canções, cultos e pregações de padres, pastores, lideranças umbandistas, candomblecistas, espíritas, new age ou terapeutas esotéricos entre outros. Ser feliz é direito, mandato divino ou quase obrigação. Ser feliz é sagrado, sagrado são os direitos do indivíduo. Profana são as intervenções institucionais da norma religiosa na vida pessoal. Do ponto de vista institucional, a relação se inverte: sagrados são os mandatos divinos, mediados pelos profetas, sacerdotes e magos, profanos são os desejos pessoais. Mas é só assim? Não. Ao mesmo tempo surgem as depressões furiosas, os vales-da-morte trevosos, o sagrado obscuro e mortal, as fogueiras para queimar demônios que queimam junto o corpo, a vida, a alegria. Sinas dos tempos...
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